quarta-feira, 29 de abril de 2009

Como tratar crianças e adolescentes com transtornos psiquiátricos e o papel da família no tratamento

Os tratamentos se dividem em psicoterapias e medicação, por isso, é necessário definir claramente qual o papel do medicamento no transtorno diagnosticado

O estudo dos transtornos psiquiátricos na infância e adolescência é um campo relativamente novo e vem crescendo nas últimas três décadas. Para a realização do diagnóstico desses transtornos, existem critérios claros que devem ser observados. Três grandes grupos diagnósticos são relevantes: transtornos emocionais (transtorno de ansiedade, fobias, depressão), transtorno de comportamento disruptivo (transtorno de conduta, hiperatividade, transtorno desafiador de oposição), transtorno global do desenvolvimento (atraso na fala, atraso na leitura, retardo mental, transtornos autísticos). É importante salientar que os problemas de saúde mental em crianças não se limitam a esses três grupos. Os tratamentos se dividem em psicoterapias e medicação, por isso, é necessário definir claramente qual o papel do medicamento no transtorno diagnosticado. Em certas situações, o objetivo da medicação será diminuir a intensidade ou a frequência de determinados sintomas; em outras será a melhora do autocontrole; e em outros casos, melhorar o comportamento funcional (por exemplo: indivíduos com hiperatividade associada ao déficit de atenção, como crianças ou adolescentes que não conseguem permanecer quietas na sala de aula, comprometendo seu aprendizado).

Previamente ao tratamento com psicofármacos é necessária a avaliação do clínico (preferencialmente psiquiatra da área da infância e da adolescência). Essa avaliação visa obter a história da criança/adolescente e compreender sua relação com a família. Além disso, a realização de exames complementares é muito importante antes da introdução do medicamento (por exemplo: hemograma, eletroencefalograma, atividade tireoide, enzimas hepáticas). Os medicamentos conhecidos como estabilizadores do humor são usados habitualmente em psiquiatria da infância e adolescência, da mesma forma que são usados em adultos, sendo sua maior indicação para o transtorno bipolar. Por outro lado, sintoma como descontrole de impulsos e agressividade, presentes em uma variedade de outros quadros, podem também ser controlados com medicamentos como lítio, carbamazepina e ácido valpróico. Os cuidados com estabilizadores do humor em crianças e adolescentes seguem os parâmetros de controle usados em adultos, devendo-se monitorar (controlar) os níveis sanguíneos desses medicamentos e realizar hemograma de controle para verificar o número de plaquetas e eventuais leucopenias (diminuição dos glóbulos brancos do sangue), uma vez que, o uso contínuo destes medicamentos pode induzir alterações sanguíneas.

A carbamazepina é frequentemente utilizada em crianças, e muitos estudos sugerem sua indicação para o tratamento do transtorno agressivo grave. Esse medicamento possui comprovadamente efeitos antimaníaco, anticonvulsivante e antidepressivo, além disso, parece ter efeitos na atividade motora, diminuindo a agressividade e aumentando a capacidade de concentração. Entretanto, seus efeitos colaterais mais comuns podem ser: tontura, sonolência, náusea, vômito e visão turva. Outros efeitos mais graves, porém raros, podem ocorrer, tais como supressão da medula óssea, toxicidade hepática e distúrbios cutâneos.

Contudo, a compreensão, a participação e o apoio da família são fundamentais para o tratamento, favorecendo a adesão ao mesmo, ou seja, o comprometimento do responsável pela criança/adolescente em acompanhá-lo às consultas, atendimentos e mesmo na administração dos medicamentos, conforme orientação terapêutica, são responsáveis pelo sucesso do tratamento.

Outros fatores que podem afetar a adesão da família e/ou paciente ao tratamento prescrito pelo médico, podem estar relacionados exclusivamente ao medicamento, como os efeitos colaterais, o tamanho do comprimido, seu cheiro e sabor, lembranças que o paciente possa ter de outras experiências anteriores da utilização do mesmo medicamento, ou mesmo as relacionadas ao tratamento atual. Todavia, a não adesão pode também estar relacionada à aquisição do medicamento, quer pela ausência do medicamento na unidade de saúde, quer pela ausência na farmácia comercial. A não-adesão ao tratamento é responsável por grandes frustrações na psiquiatria. A questão da adesão terapêutica tem sido discutida e estudada por vários profissionais de saúde por se tratar de um ponto fundamental para a resolubilidade de um tratamento, mas ainda são poucos os estudos na área da saúde mental na infância e adolescência realizados no Brasil.

Hebe Karina de Oliveira Stucchi é aluna do mestrado em Ciências Farmacêuticas da Universidade de Sorocaba (Uniso), orientanda da prof. dra. Marli Gerenutti. Projeto de pesquisa com apoio da Associação Pró-Reintegração Social da Criança - Capsi-Sorocaba e da Unim.

(fonte: Hebe Karina de Oliveira Stucchi, 28/04/2009 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2 do caderno A)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Transtorno Bipolar na Infância

A infância é uma época estratégica da vida do ser humano. É quando se dá um grande desenvolvimento físico, psicológico e mental, concomitantemente ao aprendizado básico indispensável para todos os que se seguirão por toda vida.

A relevância da observação dos comportamentos e aquisições intelectuais da criança e do adolescente feita por pais e professores é imensa, mas não substitui uma avaliação médica e de especialistas em diferentes áreas, quando estes comportamentos fogem da freqüência e intensidade usuais.

Até alguns anos atrás, poucas eram as doenças mentais reconhecíveis na infância. Com o aumento das pesquisas e o incremento de estudos científicos, os diagnósticos de vários transtornos psiquiátricos em crianças e adolescentes tornaram-se possíveis e decorrentes dessa nova condição. Aparentemente, os casos se multiplicaram numericamente e se fizeram mais conhecidos pela população em geral.

Entre esses, o Transtorno do Déficit da Atenção, com ou sem hiperatividade (TDA/H) e o Transtorno do Humor Bipolar (THB) têm sido objeto de muitos estudos em vários países, pois ocasionam forte impacto sobre a vida escolar, pessoal, familiar e mais tarde profissional do paciente, especialmente quando não devidamente diagnosticados e tratados por equipes de profissionais especializados.

O TDA/H, hoje muito comentado em função da amplitude da divulgação na imprensa, é um exemplo. Conhecido dos médicos há várias décadas, com o advento das especializações, como por exemplo a psicopedagogia, passou a ser objeto de estudo multidisciplinar e os resultados dos tratamentos têm sido, em sua grande parte, de enorme valia, tanto para os pacientes, como para suas famílias e a sociedade.

Os prejuízos decorrentes da falta de diagnóstico e do acompanhamento médico e psicopedagógico vão do fracasso escolar à evasão, da baixa auto-estima à depressão, da rejeição do grupo ao isolamento, às drogas, à gravidez precoce, à promiscuidade sexual e marginalização, entre outras.
Infelizmente, a especulação por parte de alguns profissionais não credenciados para tal avaliação, ou ainda, diagnóstico feito por pessoas leigas, tem trazido mais problemas aos que já sofrem com esse transtorno. Generalizou-se, irresponsavelmente, por exemplo, chamar de TDA/H a toda e qualquer manifestação de inquietação, distração ou falta de limite que as crianças e jovens apresentem na escola ou em casa. Como conseqüência, casos em que o transtorno não existe de fato aparecem em toda parte, banalizando um problema sério e de grande repercussão sobre a vida dos pacientes reais e sua família. Estes falsos diagnósticos são geralmente feitos à base de “achismos” como o preenchimento de questionários ou testes sem qualquer base científica ou mesmo ao sabor das conveniências pessoais de alguns adultos, que pensam dela tirar proveito, seja para justificar uma educação deficiente em limites, normas e atenção à criança ou, ainda, a outros interesses particulares.

O Transtorno de Humor Bipolar em crianças é outro exemplo de doença psiquiátrica que exige seriedade no encaminhamento, pois, nessa faixa etária, a sua sintomatologia pode se apresentar de forma atípica.

Assim, ao invés da euforia seguida da depressão dos adultos, nas crianças surge a agressividade gratuita seguida de períodos de depressão. Nestas, o curso do Transtorno é também mais crônico do que episódico e sintomas mistos com depressão seguida de “tempestades afetivas”, são comuns. Além disso, a mudança é rápida e pode acontecer várias vezes dentro de um mesmo dia, como por exemplo: alterações bruscas de humor (de muito contente a muito irritado ou agressivo); notável troca dos seus padrões usuais de sono ou apetite; excesso de energia seguida de grande fadiga e falta de concentração. Esses são alguns sintomas que devem ser observados.

Os diagnósticos de transtornos da saúde mental são difíceis mesmo para os especialistas, pois é alta a prevalência de comorbidades, ou seja, o aparecimento de dois transtornos simultaneamente, o que exige conhecimento, experiência e observação minuciosa do médico e da equipe envolvida, como psicólogos e psicopedagogos.

É importante salientar ainda que estes transtornos afetam seriamente o desenvolvimento e o crescimento emocional dos pacientes, sendo associados a dificuldades escolares, comportamento de alto risco (como promiscuidade sexual e abuso de substâncias), dificuldades nas relações interpessoais, tentativas de suicídio, problemas legais, múltiplas hospitalizações, etc.

Os diagnósticos devem sempre ser realizados por médicos psiquiatras ou neurologistas em conjunto com psicopedagogos, que ao diagnosticarem e acompanharem a criança, se preocupam em dar também orientações à família e à escola.

Minimizar esses transtornos só piora suas conseqüências e prejudica o paciente. Somente especialistas podem afastar e esclarecer as dúvidas e não é exagero ser cuidadoso quando se trata da vida, saúde e futuro dos nossos filhos!

(Fonte: Maria Irene Maluf, Pedagoga especialista em Psicopedagogia)