terça-feira, 16 de novembro de 2010

Ressonância magnética pode ajudar a identificar bipolaridade

Exame também pode ajudar no diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade

Pesquisadores apontam que o uso de exames cerebrais por imagem, para observar como o funcionamento da memória é influenciado pelas emoções, pode ajudar a identificar crianças que sofrem de transtorno bipolar ou do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Diferenciar os dois transtornos baseando-se apenas em medidas comportamentais é tarefa difícil para os médicos. Porém, os pesquisadores da Universidade de Illinois, em Chicago, afirmam que as novas descobertas podem ajudar nos esforços para desenvolver exames de diagnósticos baseados tanto em marcadores neurológicos como em comportamentais.

No estudo foram utilizados exames de ressonância magnética funcional para observar as atividades cerebrais de crianças e jovens enquanto os mesmos realizavam tarefas de memória, ao mesmo tempo em que visualizavam rostos com diferentes emoções. Os participantes tinham entre 10 e 18 anos, sendo que 23 deles sofriam de transtorno bipolar, 14 de TDAH e 19 não apresentavam nenhum dos dois problemas. Os autores do estudo ressaltaram que aqueles que sofriam de um dos dois transtornos não estavam tomando medicação.

Segundo o relatório publicado na edição de outubro do Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, em comparação aos participantes do grupo de controle, aqueles que sofriam de um dos dois transtornos apresentaram disfunções no córtex pré-frontal - área que controla o comportamento (como a impulsividade), as funções executivas, a memória de trabalho, a atenção e a linguagem.

O estudo constatou que os participantes com TDAH foram os que apresentaram as disfunções mais severas no córtex pré-frontal, mas os que sofriam de transtorno bipolar apresentaram maiores deficiências em áreas cerebrais envolvidas no processamento e regulagem das emoções.

"Esperamos que, ao conseguir diferenciar melhor esses dois graves distúrbios comportamentais, possamos desenvolver diagnósticos mais precisos e tratamentos mais direcionados para o transtorno bipolar e o TDAH", disse em um release Alessandra Passarotti, professora assistente de psiquiatria na Universidade e principal autora do estudo. (FONTE: http://www.midianews.com.br/?pg=noticias&cat=7&idnot=35385)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Da euforia à ansiedade: como identificar os sintomas do transtorno bipolar?

Apesar de pouco conhecido, o transtorno atinge cerca de 10% da população (Por Sabrina Silveira http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/bem-estar/19,0,3083927,Da-euforia-a-ansiedade-como-identificar-os-sintomas-do-transtorno-bipolar.html)
O humor instável e sem motivo aparente pode representar muito mais do que estresse ou depressão. Pessoas que apresentam variações frequentes e exageradas entre euforia e ansiedade ou tristeza, podem estar sofrendo de bipolaridade. Apesar de pouco conhecido, o transtorno atinge cerca de 10% da população.

Segundo o psiquiatra e coordenador do Ambulatório de Bipolaridade do Hospital São Lucas da PUCRS, Diogo Lara, as mudanças de humor são fundamentais ao ser humano pois servem como um sistema de adaptação ao meio ambiente. É resposta previsível e estável a algum estímulo que a pessoa sofra.

— O humor saudável ajuda a gente se adequar ao contexto. Se a pessoa tem transtorno, ela dança fora do ritmo. Ela tem um humor desregulado e desconectado do contexto — explica o especialista.

O transtorno bipolar faz com que o paciente reaja de forma inesperada e intensa a alguns estímulos. E isso é o que difere a doença de outros problemas pontuais, segundo o médico. Estas atitudes exageradas de quem sofre do transtorno podem levar a situações vergonhosas ou até arriscadas.

— No aspecto eufórico existe essa inflação, tudo é grande, intenso, especial. Assim como um torcedor pode extrapolar a emoção comemorando a vitória de um título.

Principais características do transtorno:

:: autonomia do humor: o paciente sofre variações de humor que não estão adequados ao momento em que vive ou ao estímulo que sofre;

:: instabilidade: picos de euforia podem alternar com tristeza e ansiedade ou medo;

:: excessos: o paciente extrapola as emoções e pode ter excessos comportamentais como vício em jogos, drogas, sexo, compras;

:: exposição: pessoas bipolares acabam se expondo a riscos ou situações desagradáveis;

:: impulsividade: é comum em pessoas que sofrem da doença agir por impulso.

Aspectos que diferem da depressão

Quando um bipolar está com o humor em baixa, é comum apresentar sintomas de depressão como a falta de vontade de fazer as coisas. Porém, quando alguém sofre de depressão, não apresenta forte euforia, impulsividade e irritabilidade, apenas tensão, ansiedade e tristeza.

— Algumas pessoas confundem, pois a ansiedade e a tensão são os sentimentos mais comuns ao longo da vida de pacientes que sofrem de transtorno bipolar — afirma Lara.

O psiquiatra alerta também que a bipolaridade pode se manifestar depois de muitos anos e não só com mudanças bruscas de humor, que podem ocorrer em um mesmo dia. Somente a avaliação de um profissional especializado pode diagnosticar o problema.

— Essa bipolaridade muitas vezes não é identificada de forma correta, e o tratamento com anti depressivos induz uma virada de humor, para o lado da euforia — explica o psiquiatra.

Como é feito o diagnóstico?

:: A avaliação clínica é feita com o paciente e um familiar.

:: Alguns indicadores: temperamento mais forte ou dinâmico, excessos comportamentais, irritabilidade e histórico na família de excessos ou transtorno bipolar.

Tratamento

:: Medicamentos estabilizadores de humor.

:: Psicoterapia e reeducação de hábitos como exercícios físicos e rotinas pré-definidas para regular o comportamento.

Teste psiquiátrico gratuito on line:

Lara é coordenador de um projeto de pesquisa científica que capta dados sobre comportamento por meio do website www.temperamento.com.br. O sistema de avaliação mental é dividido em duas fases: psicológica e psiquiátrica. Um dos objetivos, é avaliar sintomas e transtornos psiquiátricos que que a população pode ter.

Ao final do teste o participante recebe os resultados do seu perfil de temperamento e a probabilidade de estar com algum transtorno psiquiátrico. Desde dezembro no ar, o site já coletou informações sobre mais de 40 mil pessoas. O teste é anônimo e gratuito.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Transtorno bipolar virou diagnóstico desejável, diz pesquisador

Uma dupla de psiquiatras britânicos alertou para um novo fenômeno: o fato de que muitas pessoas estão se autodiagnosticando com transtorno bipolar ou pedindo para que médicos façam esse diagnóstico.

Segundo os psiquiatras Diana Chan e Lester Sireling, do hospital St. Ann, em Londres, o fenômeno se deve ao aumento da conscientização pública em relação à condição e ao fato de que várias celebridades no país estão falando abertamente sobre serem bipolares.

Isso, segundo eles, tem feito com que o transtorno seja mais aceitável e tenha menos estigma. Os psiquiatras disseram ainda que os pacientes podem ainda estar buscando um status social mais alto, já que a condição costuma ser associada a pessoas criativas como o ator britânico Stephen Fry, que vem discutindo abertamente seu diagnóstico.

Desde que o ator veio a público para falar sobre sua condição, psiquiatras britânicos vem recebendo mais pacientes que dizem ser bipolares, segundo Chan.

Desafios
"Uma pessoa que veio a nós tendo se diagnosticado como bipolar havia sido tratada antes com depressão", disse. "Ela também estava usando álcool e drogas ilícitas para controlar suas "variações de humor" e havia relatado comportamento vergonhoso e instável", disse a psiquiatra. A paciente acabou sendo diagnosticada com o transtorno bipolar.

Segundo a psiquiatra, ser bipolar virou um diagnóstico visto como desejável, o que deve aumentar ainda mais o número de pessoas chegando ao consultório com este autodiagnóstico. Isso traz uma série de desafios aos médicos.

"É importante que os psiquiatras façam esse diagnóstico quando válido", disse Chan. "Mas, por outro lado é igualmente essencial ajudar as pessoas que desejam esse diagnóstico a entender que ter ''variações de humor'' e comportamentos caóticos ou instáveis não significa necessariamente que estejam sofrendo de transtorno bipolar."

O transtorno bipolar é uma condição mental que se manifesta com episódios de instabilidade de humor, alternando entre o "alto" (comportamento maníaco) e o "baixo" (depressão). A condição pode atrapalhar os relacionamentos, trabalho e interações sociais dos pacientes.

(FONTE: site:TERRA.COM.BR, 16 de junho de 2010 • 12h17)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Projeto de pesquisa brasileiro sobre transtorno bipolar recebe prêmio da UNESCO

Projeto de pesquisa brasileiro sobre transtorno bipolar recebe prêmio da UNESCO
Se um dos pais tem o transtorno, aumentam as chances de os filhos terem a doença. O transtorno bipolar é uma doença que afeta o humor, levando a pessoa a ter alternância de episódios de euforia e depressão. Nas famílias em que um dos parceiros tem a doença, há 10 vezes mais chance de um dos filhos apresentar o problema, enquanto que na população em geral, esse número é de 1%. Um projeto de pesquisa que visa estudar os genes envolvidos com a doença nas famílias de crianças com o transtorno acaba de ser premiado pelo Programa L’Oréal/Unesco Para Mulheres na Ciência.
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O projeto "Estudo genético do sistema dopaminérgico em famílias de crianças com o transtorno do humor bipolar" está sendo desenvolvido na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) por uma equipe de pesquisadores ligados ao Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria (LIM-21) e do Programa de Transtorno Bipolar (PROMAN) do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC), ambos da FMUSP.De acordo com a psiquiatra Sheila Cavalcante Caetano, que foi agraciada com o prêmio, os pesquisadores irão colher amostras de sangue dos pais e das mães de crianças com transtorno bipolar para realizar uma avaliação genética visando entender quais genes estão ligados ao aparecimento do transtorno nos filhos. "Usaremos o prêmio de 20 mil dólares para o desenvolvimento da pesquisa, que estava orçada exatamente neste valor", comenta a médica. "Acreditamos que agora no mês de outubro vamos iniciar as primeiras coletas", informa. Segundo ela, o projeto já foi aprovado pela Comissão de Ética da FMUSP.
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Sheila ressalta que o transtorno bipolar apresenta uma forte carga genética, mas não é uma doença determinista. "Isso significa que não é toda criança com pais onde um dos conjuges tem a doença que irá desenvolver o transtorno. O que ocorre é que há uma incidência de 10% em crianças com pais que têm a doença. Na população em geral, o índice é de 1%", destaca. Ela lembra que 40% dos filhos de pais acometidos pela doença terão algum tipo de doença psiquiátrica, como depressão e transtornos de ansiedade.DopaminaA psiquiatra explica que, no cérebro, a comunicação entre os neurônios acontece por meio de neurotransmissores, como a dopamina. "Nos casos de esquizofrenia, os pacientes têm alguns sintomas psicóticos, como alucinações e sensação de perseguição. Crianças com transtorno bipolar têm sintomas semelhantes a estes citados", conta a pesquisadora. "Em experimentos realizados com ratos, quando o nível de dopamina aumenta, esses animais também se mostram eufóricos e com comportamento semelhante ao verificado na fase de euforia do transtorno bipolar. Por isso acreditamos que o sistema dopaminérgico tem um papel fundamental na doença", explica.
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A coleta de material será feita nos pacientes atendidos no Lim-21 e no PROMAN, locais onde a psiquiatra atua profissionalmente. Será coletado o sangue dos pais, mães e das crianças, com idade entre 6 e18 anos. Os pais também responderão a questionários. A pesquisa faz parte do pós-doutoramento de Sheila, pela FMUSP, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e tem a participação dos médicos Ana Kleinmam e Beny Lafer.A médica conta que as crianças com o transtorno, durante a fase depressiva da doença, podem ficar sem se alimentar, totalmente desmotivadas e com pensamentos suicidas, entre outros sintomas; já durante a fase da euforia, elas se transformam totalmente: ficam agitadas, não param de falar a ponto de atrapalharem as aulas.
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Sheila afirma que há algumas pesquisas americanas que apontam que a criança com transtorno bipolar vem de uma família desorganizada, onde não há atividades de lazer realizadas em conjunto. "Com o projeto poderemos descobrir se as famílias brasileiras são tão prejudicadas quanto as americanas", aponta.
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Os primeiros resultados do estudo deverão estar disponíveis pelo menos em dois anos. Uma das dificuldades, segundo a psiquiatra, é que a pesquisa deve ser feita com a criança com transtorno bipolar, o pai e a mãe. "O índice de divórcios é maior quando um dos cônjuges tem a doença. Então é possível que tenhamos algum tipo de dificuldade para unir as três partes envolvidas na pesquisa", diz.
(FONTE: Por Valéria Dias, da Agência USP São Paulo)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O POTENCIAL NEUROPROTETOR DO LÍTIO E SEU IMPACTO SOBRE A HISTÓRIA NATURAL DO TRANSTORNO BIPOLAR E DA DOENÇA DE ALZHEIMER

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INTRODUÇÃO: O LÍTIO E SEU MECANISMO DE AÇÃO
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O lítio é um elemento químico da família 1A da tabela periódica, sendo um dos átomos mais simples encontrados na natureza. Os sais de lítio figuram entre os medicamentos mais antigos utilizados na era moderna da Psiquiatria, sendo prescritos desde o século XIX, inicialmente como sedativos. Os primeiros estudos que avaliaram sua eficácia para o tratamento de transtornos psiquiátricos remontam ao ano de 1949, quando John Cade, na Austrália, publicou resultados atestando sua eficácia no controle de episódios maníacos (Cade, 1949). Portanto, podemos afirmar que os sais de lítio são utilizados há mais de meio século para o tratamento das doenças mentais, especialmente o transtorno afetivo bipolar (TAB), com eficácia inquestionável e dentro de parâmetros aceitáveis de segurança (van Melick et al., 2008).
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Apesar de sua ampla prescrição na prática psiquiátrica, pouco se sabia até recentemente sobre os mecanismos subjacentes à ação do lítio no sistema nervoso central. Os efeitos terapêuticos do lítio decorrem de ações em diversos substratos celulares diferentes. O mecanismo mais conhecido consiste na inibição da enzima inositol-monofosfatase (IMPase), o que impede a geração de inositol-1,4,5-trifosfato e conduz à depleção dos estoques de inositol. Desse modo, o lítio bloqueia a resposta aos estímulos extracelulares dependentes da atividade enzimática da fosfolipase C (PLC) (Atack et al., 1993; Manji et al., 1995).
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Além disso, o lítio é um potente inibidor da atividade da enzima glicogênio sintase-cinase (GSK-3). Essa cinase é expressa em vários sistemas biológicos e tem duas isoformas principais: a GSK-3α e a GSK-3β, sendo a última a isoforma mais abundante no organismo. Enquanto a GSK-3α tem participação preponderante no metabolismo energético, principalmente o metabolismo do glicogênio em hepatócitos, a GSK-3β também está envolvida na regulação de diversas cascatas bioquímicas necessárias para a homeostase do sistema nervoso central. Em neurônios, a GSK-3β modula uma série de processos de sinalização intracelular e, na regulação, fatores de transcrição que controlam a expressão gênica. Logo, a enzima exerce funções que vão desde a sobrevivência celular, passando pelo processamento de proteínas e fatores de transcrição, até mecanismos de plasticidade sináptica que estão, ultimamente, relacionados aos processos cognitivos e ao ajuste do humor (Hooper et al., 2007; Peineau et al., 2008).
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O PAPEL DA GSK-3β NA FISIOPATOLOGIA DOS TRANSTORNOS NEUROPSIQUIÁTRICOS
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Alterações da atividade da GSK-3β podem estar relacionadas ao desenvolvimento de determinados transtornos psiquiátricos e neurodegenerativos, como o transtorno bipolar (Manji
et al., 1999), a esquizofrenia (Lovestone et al., 2007) e a doença de Alzheimer (DA) (Hanger et al., 1992). Evidências convergentes apontam para a desregulação dessa enzima como um mecanismo subjacente às alterações do neurodesenvolvimento que predispõem a determinadas doenças mentais, como a esquizofrenia.
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No cérebro adulto, anormalidades da função e da regulação da GSK-3β podem influenciar a sinalização dopaminérgica, associando-se ao desencadeamento de sintomas psicóticos e à disfunção cognitiva (Lovestone et al., 2007). Em estudo post-mortem publicado recentemente, pesquisadores da Universidade de Genebra, na Suíça, identificaram aumento da atividade da GSK-3β (sem alteração dos níveis de GSK-3α) em tecido cerebral de pacientes portadores de transtorno depressivo maior, que faleceram após cometer suicídio (Karege et al., 2007). Essa alteração mostrouse associada à inibição da enzima Akt, o que, por sua vez, se correlacionou com redução da sinalização serotonérgica, possibilitando implicar anormalidades da enzima GSK-3β com um determinado fenótipo comportamental em pacientes portadores de transtorno do humor (O’Brien e Klein, 2007).
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A GSK-3β também se encontra hiperativa em pacientes com DA (Hye et al., 2005). No que se refere à neurobiologia da DA, a GSK-3β exerce um papel importante na regulação do metabolismo da proteína precursora do amilóide (PPA) e da fosforilação da proteína Tau. Portanto, perturbações do ajuste de sua função, levando à hiperatividade da GSK-3β, contribuem para a produção excessiva do peptídeo beta-amilóide (Aβ) e a hiperfosforilação da proteína Tau. Esses dois processos bioquímicos são os pontos de partida para a formação, respectivamente, das placas senis e dos emaranhados neurofibrilares, que correspondem aos principais marcadores neuropatológicos da DA (Klein e Melton 1996; Su et al., 2004).
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A atividade da GSK-3β é regulada pela fosforilação dos aminoácidos em sua cadeia protéica. Esse
processo depende do balanço entre diversas cinases e fosfatases protéicas. A forma ativa dessa enzima corresponde a sua forma não fosforilada, sendo, conseqüentemente, inativada pela fosforilação (Klein e Melton, 1996; Doble e Woodgett, 2003). Estudos realizados na segunda metade da década de 1990 demonstraram que o lítio é um potente inibidor da atividade da GSK 3β. Essa ação, observada em concentrações terapêuticas do lítio (1,0 mM), reduz (mas não suprime) a capacidade fosforilativa da GSK-3β, mediante bloqueio direto, não-competitivo e reversível de sua atividade enzimática (Lovestone et al., 1999). Essa inibição é decorrente da fosforilação do resíduo de serina na posição 9 da cadeia protéica. Essa capacidade de inibição da atividade da GSK-3β pode estar relacionada a sua atividade terapêutica como estabilizador do humor no TAB e também ser um alvo terapêutico em potencial na DA. Além da redução da atividade enzimática por meio do efeito direto sobre a GSK-3β, o lítio promove ainda a redução da expressão do gene da GSK-3 (Mendes et al., 2008).
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LÍTIO E NEUROPROTEÇÃO
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Nos últimos anos, houve um grande acúmulo de evidências sobre o potencial neuroprotetor do lítio (Nunes et al., 2007b). Em modelos celulares, demonstrou-se que o lítio previne a apoptose celular, inibe a expressão de proteínas pró-apoptóticas (por exemplo, os genes p53 e Bax), aumenta os níveis de expressão de genes citoprotetores (como o gene Bcl-2) e os níveis do fator neurotrófico derivado cerebral (FNDC) (Chen e Chuang, 1999). Além disso, inibe a hiperfosforilação da proteína Tau, efeito secundário à inibição da enzima GSK-3β (Hong et al., 1997; Forlenza et al., 2000) e protege contra os efeitos neurotóxicos do peptídeo β-amilóide (Alvarez et al., 1999). Em modelos animais, a exposição crônica ao lítio mostrou-se capaz de reduzir os danos causados por eventos isquêmicos cerebrais (Nonaka et al., 1998) e de estimular a neurogênese na formação hipocampal (Chen et al., 2000). O uso crônico de lítio em níveis terapêuticos estimula o metabolismo secretor da PPA, favorecendo sua clivagem nãoamiloidogênica e reduzindo, portanto, a produção do peptídeo Aβ. Além disso, o tratamento com sais de lítio mostrou-se protetor contra a hiperfosforilação da proteína Tau em diversos modelos biológicos (Noble et al., 2005).
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Recentemente, surgiram evidências na literatura do efeito neuroprotetor e neurotrófico do lítio em seres humanos. Em um estudo com 10 pacientes com transtorno bipolar, oito deles obtiveram aumento significativo do conteúdo de substância cinzenta após 4 semanas de tratamento com lítio, na concentração média de 0,8 mEq/l (Moore et al., 2000b). Em outro estudo, Bearden et al. (2007) constataram que os pacientes portadores do transtorno bipolar que faziam uso crônico de lítio apresentavam maior densidade de substância cinzenta cortical que os pacientes portadores da mesma doença, mas que não faziam uso do lítio.
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O aumento da densidade cortical é um indício do efeito neurotrófico do lítio. Outras evidências das ações neurotróficas do lítio no cérebro humano vêm do estudo do N-acetil-aspartato (NAA) por meio de espectroscopia por ressonância magnética. O NAA é um marcador da viabilidade neuronal e está localizado primariamente nos neuritos (e não nos corpos celulares). Da mesma forma, após 4 semanas de tratamento com lítio, houve aumento de NAA na substância cinzenta cerebral dos pacientes (Moore et al., 2000a). Em um estudo realizado em nosso grupo, os pacientes idosos portadores do transtorno bipolar que faziam uso crônico do lítio tiveram menor incidência de quadros demenciais, em especial DA, em relação aos idosos que faziam uso de outros estabilizadores do humor para o tratamento do transtorno bipolar (5% vs. 33%, respectivamente) (Nunes et al., 2007a). Esse estudo demonstrou que o lítio pode exercer um efeito protetor contra o desenvolvimento de DA em pacientes portadores do transtorno bipolar, condição que, sabidamente, está associada a maior risco de evolução para demência (Kessing e Nilsson, 2003).
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Mais recentemente, pesquisadores da Universidade de Pisa, na Itália, publicaram evidências do efeito protetor do tratamento com lítio (0,4 a 0,8mEq/l) sobre a progressão clínica da esclerose 5 lateral amiotrófica (Fornai et al., 2008b). Os supostos efeitos neuroprotetores foram corroborados por meio de modelo animal, sendo esse efeito protetor atribuído à estimulação da biogênese mitocondrial no sistema nervoso central, favorecendo a remoção de agregados protéicos e mitocôndrias disfuncionais. Os autores concluem que a ação do lítio suprime a proliferação glial e favorece a neurogênese na medula espinal, bem como a diferenciação neuronal em direção a fenótipos específicos (Fornai et al., 2008a).
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NOVAS PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS
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Na última década, observou-se grande crescimento do conhecimento sobre os mecanismos patogênicos da DA. Esses avanços possibilitaram o surgimento de novas possibilidades de intervenção terapêutica, visando a modificar a história natural da doença. Estudos de intervenção (fases 2 e 3) encontram-se em andamento em diversos centros de pesquisa e com diferentes drogas “antidemência”. São exemplos a imunoterapia antiamilóide, os inibidores da agregação do peptídeo beta-amilóide, os moduladores das secretases e os inibidores da GSK-3β.
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Em paralelo, a necessidade de um conhecimento maior sobre os aspectos clínicos e cognitivos da transição entre o envelhecimento cognitivo normal e as fases iniciais dos transtornos demenciantes -em particular a DA- levou ao desenvolvimento do conceito de comprometimento cognitivo leve (CCL) (Petersen et al., 1999), tendo como principal objetivo estabelecer critérios clínicos para identificar os casos prodrômicos de DA (Dubois et al., 2007). O desenvolvimento de métodos clínicos e laboratoriais para diagn stico precoce (que, idealmente, deve ser estabelecido na fase pré-demencial da doença), aliado à disponibilização de medicamentos capazes de modificar a patogenia da DA, são compromissos da ciência e necessidades urgentes da medicina. Essa combinação de intervenções proporcionará a modificação da história natural da DA, retardando a sua evolução clínica e patológica, com repercussões individuais e epidemiológicas significativas.
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Pesquisadores do King’s College de Londres, liderados por Simon Lovestone, publicaram recentemente os resultados do primeiro estudo aberto sobre viabilidade e tolerabilidade do uso de sais de lítio no tratamento da DA (MacDonald et al., 2008). Nesse estudo aberto de 1 ano de duração, embora a taxa de interrupção do tratamento tenha sido elevada (64%), apenas a minoria o fez em função de efeitos adversos importantes. Os autores concluíram que, respeitando-se os limites da tolerabilidade e manejando adequadamente os eventuais eventos adversos, podemos considerar o lítio uma droga candidata ao tratamento da DA.
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Ainda não existem estudos controlados sobre o potencial neuroprotetor do lítio em pacientes com DA ou em populações de risco para demência, e várias questões metodológicas ainda devem ser respondidas. Por exemplo, se existem subgrupos de pacientes que podem benefeciar-se mais dos
efeitos do lítio, qual deve ser a duração do tratamento com o lítio ou a idade ideal para se iniciar?Além disso as doses (ou níveis séricos) necessárias para a obtenção do efeito biológico não estão definidas, dependendo dessas informações a definição dos parâmetros de segurança e tolerabilidade.
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A indústria farmacêutica internacional ocupa-se atualmente do desenvolvimento e teste de novas moléculas com propriedades semelhantes às do lítio, sobretudo na inibição da GSK-3β. No Laboratório de Neurociências – LIM 27, do Departamento e Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, uma equipe multidisciplinar procura, por meio de estudo clínico randomizado em pacientes portadores do comprometimento cognitivo leve, responder a algumas dessas questões. Se for comprovado o efeito protetor do lítio contra os processos patogênicos da DA, a prescrição dos sais de lítio poderá vir a representar uma estratégia terapêutica e preventiva de altíssimo impacto clínico e farmacoeconômico.
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CONCLUSÕES
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As evidências do potencial neuroprotetor do lítio são inequívocas, com indícios consistentes de que essa ação possa interromper ou retardar determinados processos patogênicos associados ao declínio cognitivo e à demência. O lítio pode, assim, contribuir para a modificação da história natural de diferentes condições que acometem o sistema nervoso central, tais como a DA, o transtorno bipolar e a doença do neurônio motor. Estudos em modelos celulares e animais permitiram conhecer melhor os mecanismos da ação neurotrófica e neuroprotetora do lítio, especialmente a inibição da enzima GSK-3β. Estudos naturalísticos e exploratórios em seres humanos corroboraram as hipóteses laboratoriais de que o uso crônico de lítio pode exercer um efeito protetor contra o desenvolvimento de quadros demenciais. Desta maneira, o lítio, pela inibição da GSK-3β, pode ser considerado uma droga com potencial de diminuir a incidência de doenças neurodegenerativas em idosos, sobretudo a DA (Chuang e Manji, 2007).
(FONTE: ORESTES V. FORLENZA(1) e WAGNER F. GATTAZ (2) (1) Médico Psiquiatra, Professor Colaborador do Departamento de Psiquiatria da FMUSP, Vice-diretor do Laboratório de Neurociências (LIM 27) do Departamento e Instituto de Psiquiatria da FMUSP. (2) Médico Psiquiatra, Professor Titular do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e Presidente do Conselho Diretor do Instituto de Psiquiatria da USP, Diretor do Laboratório de Neurociências (LIM 27) do Departamento e Instituto de Psiquiatria da FMUSP.)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Psiquiatria no serviço PÚBLICO

No dia 07 de abril de 2009, a ABP protocolou uma representação no Ministério Público Federal. O documento alerta para o não cumprimento, por parte da Coordenadoria de Saúde Mental do Ministério da Saúde, da legislação relativa à área no Brasil. Enquanto prazos e metas estipulados pelo próprio Ministério não são respeitados, o atendimento a pacientes com doenças mentais torna-se mais difícil.
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Nesta reportagem especial da revista "Psiquiatria Hoje", pegarei partes onde conta a história e os rumos da política de (des)assistência em saúde mental no Brasil.
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No final dos anos 80, o Brasil passou pelo processo de redemocratização, que culminou com a constituição de 1988 e com a criação do Sistema Único de Saúde. Mais alguns anos de passaram e no dia 6 de abril de 2001 foi aprovada a Lei Federal n° 10.216, que estabelece ênfase no tratamento extra-hospitalar, de base comunitária, para os pacientes com doença mental. Para quem cobrou essas mudanças ao longo de anos, o texto foi uma conquista importante
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Mas a realidade da assistência pública em saúde mental continuou ruim. Em junho do ano seguinte, a portaria n° 1.101 definiu o índice de 0,45 leitos psiquiátricos por cada mil habitantes como o ideal para atender a demanda por internação psiquiátrica no Brasil. Quase seis anos depois, o Ministério da Saúde não conseguiu cumprir a meta que estipulou. O país tem hoje 0,23 leitos para cada mil habitantes. è um índice pior do que o encontrado em países como Israel (0,88), Argentina (0,68) e Uruguai (0,54), que têm números superiores ao referencial usado pela Coordenação de Sáude Mental brasileira.
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Colaboração
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Segundo o atual presidente da ABP, durante todo o período assinalado a instituição buscou aproximar-se dos responsáveis para cobrar as providências necessárias. "O posicionamento de nossa Associação sempre foi de acompanhar criticamente o processo e colaborar com a construção de políticas baseadas no que há de melhor em matéria de conhecimento científico. Contudo, temos percebido que as decisões do Ministério são majoritariamente ideológicas", comentou João Alberto Carvalho.
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Neste sentido, uma das iniciativas mais recentes foi a elaboração das "Diretrizes para um Modelo de Assistência Integral em Saúde Mental no Brasil", em 2006. O documento faz uma análise da situação atual e apresenta sugestões para construção de um sistema de atendimento eficiente e baseado em evidências. No dia 22 de agosto de 2007, o material foi entregue ao ministro José Gomes Temporão.
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O presidente da ABP à época, Josimar França, reforçou o caráter colaborativo da iniciativa. "Este documento foi elaborado por médicos associados da ABP, representa o posicionamento oficial dos psiquiatras brasileiros em relação à atual política de Saúde Mental e trata-se da prova da nossa disposição em colaborar para revitalizar a assistência médica no país", declarou.
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Descaso
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Ao final da reunião, o ministro da Saúde se comprometeu a enviar o documento à sua equipe técnica e realizar um novo encontro. Em março do ano seguinte, a ABP ainda não havia sido procurada para continuar os trabalhos. Por isso, solicitou a realização de uma nova audiência, que aconteceu no dia 25 do mesmo mês.
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No encontro, foram definidos três focos de ação para o ano de 2008: residência médica, atenção básica em saúde mental e leitos psiquiátricos em hospital geral. No primeiro tema, um ano após a reunião, a única ação proposta pelo Ministério foi a participação de um representante da psiquiatria em um encontro da Subcomissão de Estudo e Avaliação das Necessidades de Médicos Especialistas.
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Também não houve avanços no segundo item, que ficou a cargo da Coordenação de saúde mental. Além disso, o ministro se comprometeu a realizar nova reunião com os psiquiatras dentro de 30 dias. O encontro nunca foi realizado. Mas para o presidente da ABP, a situação é mais grave no último tema. "Na audiência, ficou acertada a criação de um grupo de trabalho sobre leitos e unidades psiquiátricas em hospital geral. Além da demora em oficializar sua criação, o Ministério não cumpriu os prazos que estipulou para produção de relatórios e conclusões", comentou.
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No dia 18 de abril de 2008, a ABP realizou uma reunião com especialistas em políticas de saúde mental, para definir propostas e prioridades que pudessem orientar o trabalho do grupo que deveria ser criado pelo Ministério. Nesse encontro, verificou-se a necessidade de estimular a presença de psiquiatras no Sistema Único de Saúde, o que foi feito pela Associação durante o seu congresso anual. Como era de se esperar, a maioria dos médicos relatou preferir trabalhar no setor privado ou em instituições de ensino.
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No dia 11 de setembro de 2008, seis meses após a reunião, foi publicada a portaria n° 1899, que criaria o Grupo de Trabalho sobre Saúde Mental em Hospitais Gerais. No texto, foi estipulado o prazo de 90 dias para a apresentação do relatório final com as conclusões do grupo. A coordenação das atividades seria da área técnica de saúde Mental do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas do MS. Já se passaram seis meses. Nenhum relatório foi produzido e foi realizada somente uma reunião, no dia 9 de dezembro de 2008. Segundo a assessoria de comunicação do Ministério, a previsão para um próximo encontro é para o Mês de maio. O representante da ABP no grupo de trabalho é Marco Antonio Brasil, membro do Conselho Consultivo. Além dele, os psiquiatras Rogério Wolf Aguiar e Neury Botega foram convocados a participar da reunião realizada em dezembro, representando o serviço de interconsulta do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e o Grupo de Trabalho da Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio, respectivamente.
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Na única reunião do grupo de trabalho, os participantes foram divididos em subgrupos, que ficaram com a responsabilidade de produzir estudos específicos. Aguiar comentou a forma como o processo foi realizado. "Eu, marco Antonio e Neury estudamos como implantar esse tipo de serviço. Inicialmente, a previsão de um novo encontro era para o início de março. Depois adiaram para o final de março e agora parece que será somente em maio. O nosso relatório está pronto, esperando a próxima reunião".
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Em quase três décadas, muita coisa mudou. Mas alguns problemas continuam atuais.
(Fonte: Psiquiatria Hoje, Ano XXXI, Edição 03, Março de 2009, Associação Brasileira de Psiquiatria)


segunda-feira, 1 de junho de 2009

Ela não queria que a filha "salvasse o mundo"

As tentativas de uma mãe para internar a filha adolescente, que tinha transtorno bipolar e comportamento suicida, mostram como a redução de leitos psiquiátricos deixou muitos brasileiros sem assistência
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A pedagoga Heloísa Bergamo tinha em mãos duas cartas de psiquiatras pedindo a internação de sua filha, Jacqueline, de 14 anos. Era outubro de 2005 e durante quatro dias Heloísa percorrera hospitais de São Paulo em busca de uma vaga. Havia quase um ano e meio que ela espreitava 24 horas por dia os pensamentos da filha. Na medida em que isso é possível – e em que só as mães são capazes. Em junho de 2004, a menina alegre, cheia de amigos e que estava aprendendo a tocar viola e pandeiro começara a mudar de comportamento. Tornou-se fechada. Não queria mais ir à escola. Dizia que ninguém gostava dela. Eram os primeiros sintomas do transtorno bipolar, um distúrbio psiquiátrico em que a pessoa alterna momentos de euforia ou irritação com depressão profunda. É durante essas variações de humor, causadas por um desequilíbrio na química cerebral, que até 30% dos doentes tentam tirar a própria vida. Metade acaba conseguindo.
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Heloísa sabotara todos os planos de Jacque de “salvar o mundo”. Era essa frase que a adolescente repetia quando mais uma crise começava, em uma lógica que talvez nem ela mesma entendesse. Heloísa impedira as tentativas de Jacque de saltar do carro em movimento. Seu lugar era no banco da frente, ao lado da mãe, que dirigia vigiando o fecho do cinto de segurança. Interceptara as incontáveis corridas da filha de sua casa, no centro de São Paulo, em direção à Avenida Nove de Julho, uma das mais movimentadas da cidade. Nos carros e ônibus que passam em alta velocidade, Jacque via uma oportunidade de “salvação”. No apartamento recém-alugado pela família, o encanto de Jacque - como aquele dos marujos pelas sereias, explica a mãe - era pelas janelas. As redes de proteção, cuidadosamente instaladas nas janelas do apartamento no quinto andar, eram para Jacque a cera que o herói da mitologia grega Odisseu colocou nos ouvidos para não sucumbir aos encantos das sereias.
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A internação era a última alternativa para impedir que Jacque “salvasse o mundo”. Heloísa já não conseguia conter a filha fisicamente. Jacque estava crescendo. Heloísa, enfraquecendo, esgotada com a dedicação integral à filha. Acumulava sozinha a administração de sua escola infantil e os cuidados com as filhas, Jacque e Aline, de 15 anos. Não contava com a ajuda diária do ex-marido nem da mãe, paralisada por um acidente vascular, e do pai, que sofre com um enfisema pulmonar. Os dias de trabalho eram precedidos por noites sem dormir, tentando impedir que a filha fugisse, arranhasse o rosto, se ferisse com um garfo, uma caneta ou que estivesse à mão.
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A médica que atendia Jacque havia mais de um ano no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo pediu sua internação. Não adiantou. Na carta de 18 de outubro de 2005, dirigida a outro médico que viesse a atender Jacque, a explicação. “Optamos por interná-la, porém, sem vaga”. Heloísa saiu do hospital com a carta em uma mão, segurando a filha com a outra e sem saber para onde ir. “Com minha filha se debatendo e querendo fugir, como eu poderia ficar perambulando de hospital em hospital à procura de internação?”. A solução foi retornar para casa. E voltar no dia seguinte, quando tampouco havia vagas.
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Segundo uma informação divulgada esta semana pelo hospital, ainda levaria alguns meses até que elas surgissem. Em outubro de 2005, todos os leitos da psiquiatria infantil do Hospital das Clínicas estavam desativados porque a unidade estava em reforma. Hoje, são dez em funcionamento, ocupados 98% do tempo, e que continuam sendo um dos poucos em São Paulo reservados para crianças e adolescentes com alguma doença psiquiátrica. Na época, a assistente social do hospital garantiu que Jacque estava na fila, esperando um leito psiquiátrico vagar em algum hospital público de São Paulo.
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Heloísa sabia que não podia esperar. Foi para um pronto-atendimento de psiquiatria, que estava incluído na cobertura de seu plano de saúde. Era para lá que levava a filha sempre que ela tinha uma crise nos finais de semana. Jacque recebia mais medicamento, acalmava e voltava para casa.“Era sempre um jogo de empurra: o Hospital das Clínicas dizia que era para levar a Jacque em caso de emergência para esse pronto-atendimento. Nesse lugar, davam mais remédios e mandavam antecipar a consulta semanal no Hospital das Clínicas.” Desta vez, à procura de internação, Heloísa descobriu que o pronto-atendimento não contava com leitos para crianças. Levou Jacque para o pronto-socorro de outro hospital. O psiquiatra aplicou sedativos em Jacque e a mandou embora para casa. “É isso o que eles fazem. A pessoa se acalma e eles mandam embora para casa. Mas e quando o efeito do remédio acabar?.” No prontuário de Jacque, o médico escreveu “risco de suicídio”, recomendou internação e deu alta. Cansada, Heloísa levou Jacque para casa.
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No dia seguinte, o segundo depois de a médica indicar internação, Heloísa voltou com a filha ao Hospital das Clínicas. Recebeu a recomendação de interná-la provisoriamente em um pronto-socorro, mantido pela Prefeitura de São Paulo, até que surgisse uma vaga. Foi para lá. “Eu nunca deixaria a minha filha naquele lugar. Ela tinha de ficar sentada em uma cadeira. Os remédios dela o padrinho foi buscar em casa porque lá não tinha. Era uma enfermeira cuidando de homens e mulheres, todos misturados.” Heloísa decidiu levar Jacque para casa e ficar aguardando o telefonema que avisaria sobre a vaga.
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Jacque amanheceu tranquila no dia seguinte, o terceiro na busca de Heloísa por internação. “Eu não sabia que o perigo é quando eles se acalmam”, diz Heloísa. “Sem aquele turbilhão de emoções da crise, conseguem colocar seus planos em prática.” Heloísa avisou na escola que não iria mais trabalhar. Ficaria em casa, de plantão, até receber a ligação que avisaria sobre a vaga. Passou o dia arrumando o apartamento, para onde tinha se mudado há seis dias. Ela morava com as duas filhas em um anexo de sua escola infantil, e achava que lá Jacque não tinha sossego para descansar. Também temia que a filha tentasse “salvar o mundo” na frente dos alunos, crianças com no máximo seis anos de idade.
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No fim da tarde, Jacque aceitou o convite da irmã para curtir a piscina do prédio. Heloísa, sem avistar nenhum perigo no térreo do edifício, deixou as duas na piscina e saiu para comprar alguns itens que precisava na vizinhança. Quando estava voltando para casa, viu uma manicure e resolveu fazer as unhas. Mal se sentou e carros de resgate passaram pela rua, com as sirenes ligadas. Decidiu acreditar que não podia ser em sua casa. Mas só até o telefone tocar. Aline, sua filha mais velha, avisava que Jacque pedira para voltar ao apartamento para dormir. Enquanto a irmã assistia à televisão, vigiando a porta do quarto, Jacque conseguira passar para o banheiro e trancar a porta por dentro. Aproveitou-se da única janela em que a empresa de telas de proteção não instalara uma rede: aquelas basculantes, bem pequenas, típicas de banheiro. Jogou-se. Jacque sofreu múltiplas fraturas pelo corpo e na cabeça. Foi operada, ficou dois dias em coma. Deu por cumprida sua missão de “salvar o mundo” no meio da tarde do domingo, 23 de outubro de 2005.
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Heloísa tenta retomar a vida
“Você vai escrever que eu estava fazendo a unha”, pergunta Heloísa. “Parece o cúmulo da irresponsabilidade.” Talvez para alguém que não consiga se colocar no lugar de uma mãe que colocou a própria vida em segundo plano para cuidar da filha. Mas a maioria das pessoas subentende na pergunta de Heloísa a culpa com a qual ela terá de conviver. Mesmo sem ter nenhuma. “Depois da morte da Jacque fiquei sem viver dois anos. Entrei em depressão, só dormia, descuidei do meu trabalho. Quem tocava a escola eram as minhas funcionárias. Ainda estou tentando retomar a minha vida. Mas não tenho concentração nem capacidade criativa.”
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A irmã de Jacque, Aline, também sofreu com a doença da irmã. Ela tinha 14 anos na época em que os primeiros sintomas de Jacque começaram a aparecer. Ressentia-se da atenção excessiva que a mãe dedicava à irmã. Chegou a tomar um punhado dos remédios de Jacque de uma só vez para tentar se matar. A combinação de remédios a deixou dopada por algumas horas. “Ela dizia que era melhor morrer do que viver daquele jeito”, diz Heloísa, que decidiu mandar Aline para a casa de uma amiga em Itatiba, cidade a 80 quilômetros de São Paulo. Aline passou todo o segundo semestre de 2004 no interior, estudando em uma escola local. Eram raros os finais de semana em que Heloísa conseguia visitá-la. Viajar com Jacque era um risco: ela tentava abrir a porta e se jogar do carro em movimento. “A doença acabou separando a família.”
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Hoje, Heloísa mora em uma casa, na mesma rua onde fica sua escola. De lá consegue avistar o prédio de onde Jacque se jogou. Está processando o governo do Estado de São Paulo pela falta de leitos psiquiátricos. “Tenho certeza de que Jacque não teria conseguido se matar se tivéssemos encontrado uma vaga”, afirma Heloísa. “Quem sabe ela teria uma chance de aprender a conviver com sua doença.”
(Fonte: 29/05/2009, http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca, por Marcela Buscato)