sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Cássia Kiss estrela campanha da Abrata

A Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata), estreou este mês a campanha Abrata em Ação, com a participação especial da atriz Cássia Kiss.
No filme, a atriz fala sobre os transtornos afetivos, que atingem milhares de pessoas por todo o planeta. Só a depressão, por exemplo, atinge cerca de 121 milhões de pessoas no mundo, sendo que, dessas, 75% nunca receberam tratamento adequado. Hoje, a depressão é a quarta causa global de incapacidade e deve ser a segunda até o ano de 2020.
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Cássia Kiss apóia e acredita no trabalho da Abrata, que foi criada, justamente, a partir da necessidade de uma associação em que se cuidasse dos interesses relacionados aos familiares, amigos e portadores de transtornos afetivos, como a depressão e o transtorno bipolar do humor.
A associação foi organizada em 1999, por um grupo de profissionais de saúde mental do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), familiares e portadores de transtornos afetivos. A Abrata é uma associação sem fins lucrativos, sediada na cidade de São Paulo, contando, em 2008, com cerca de 3.000 associados.
Fonte: Jornal de Piracicaba, quinta-feira, 30 de outubro de 2008

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Crianças também podem desenvolver transtorno bipolar

Mais de 40% dos pequenos com a doença continuam com sintomas na vida adulta
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O estudo defende a idéia de que as crianças podem, sim, desenvolver transtorno bipolar, diagnóstico controverso mesmo em adultos. E, muito embora os detalhes ainda não sejam precisos, a maior parte dos médicos acreditam nessa possibilidade.
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Segundo a autora do estudo, Barbara Geller, professora de psiquiatria na Washington University, crianças com esse transtorno podem apresentar a doença na vida adulta.
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Os pesquisadores, que tiveram seus resultados publicados na revista Archives of General Psychiatry, acompanharam 115 crianças de aproximadamente 11 anos, que foram diagnosticadas com transtorno bipolar entre 1995 e 1998. Oito anos depois, 54 estavam com mais de 18 anos e 44% desses pacientes ainda tinham episódios da crise.
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Agora os pesquisadores estão estudando como a genética influencia nesse quadro e a possibilidade de um exame das funções cerebrais determinar se uma criança sofre do distúrbio.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Tirar doentes das instituições exige cuidado

Patt Franciosi, da Federação Mundial de Saúde Mental, assume luta pela igualdade entre doença mental e física (Fonte: Jornal de Notícias Seção: Sociedade Data: 07/09/2008)
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Tirar pessoas com doença mental dos hospitais e integrá-los na comunidade é o caminho certo. Mas tem que ser cuidadoso para não resultar em abandono. "Só funciona se os serviços comunitários estiverem preparados para isso". Patt Franciosi é a mentora do Dia Mundial de Saúde Mental, que se assinala a 10 de Outubro. Americana, não tem papas na língua. E insta Portugal - que prepara uma nova abordagem da doença mental centrada na comunidade - a "olhar atentamente para o exemplo de outro países". A começar pelo dela."Os EUA iniciaram o programa de desinstitucionalização de pessoas com doença mental nos anos 1970. Na altura, prometeu-se que o dinheiro gasto nos hospitais iria para os serviços na comunidade. Isso não aconteceu. E ficámos com o sério problema dos sem-abrigo com doença mental, a dormir nas ruas, a acabar presos". E, para lá de dinheiro, são precisos técnicos. Mas, antes disso, é preciso que os governos olhem a saúde mental como olham a saúde física.A vice-presidente da Federação Mundial da Saúde Mental passou recentemente por Portugal, para ver com os próprios olhos o trabalho de uma associação - a Encontrar-se - que tem lutado contra o estigma e a discriminação de que são alvo as pessoas com doença mental. E que são o maior obstáculo à descoberta dos apoios de que necessitam.
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Fazer do tema uma "prioridade através da ação cívica" é justamente o lema do Dia Mundial da Saúde Mental. E Patt Franciosi explica muito sucintamente porquê: calcula-se que uma em cada quatro pessoas no Mundo sofra, em algum momento da vida, de alguma perturbação mental. E a depressão é já a sexta causa de incapacidade no planeta. "Em 2020, será a segunda".
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A necessidade de os governos olharem para estes problemas - que redundam em perda de produtividade e em isolamento social - e alocarem recursos é a mensagem de Patt Franciosi, segundo a qual o investimento público continua "muito pequeno face às necessidades". Porque se há doentes graves, há pessoas que, "com cuidados adequados e tratamento, conseguem recuperar dos sintomas" e reconquistar "padrões normais de qualidade de vida". Pessoas que sofrem de depressão, bipolaridade, esquizofrenia, perturbações de ansiedade."Só quando a saúde mental for tratada da mesma forma que a saúde física saberemos que atingimos o nosso objetivo". E isso implica tratamento e cuidados continuados. Como quando se parte uma perna e se segue para a fisioterapia. E se os EUA são um mau exemplo, por terem tudo nas mãos de seguros de saúde que se furtam a cobrir a doença mental, os países escandinavos, diz, são casos a seguir. Portugal, diz a dirigente, "pode ser um modelo. Porque é um país pequeno, homogêneo, onde é fácil implementar o plano de cuidados de saúde mental certo". "Sem psicólogos e psicoterapeutas no SNS, pergunto como vamos caminhar para cuidados na comunidade". É Filipa Palha, presidente da Encontrar-se, que intervém. Psicóloga clínica, lembra que 30% dos portugueses sofrem de perturbações psiquiátricas - 12% são casos graves - e alerta para o fato de a psicoterapia dever obrigatoriamente acompanhar a farmacologia nos tratamentos: "É urgente criar serviços para responder às necessidades desde o princípio". "Dar só medicação é pôr um penso rápido numa ferida ainda infectada", ilustraria Patt Franciosi.
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No que toca à progressiva extinção de hospitais psiquiátricos, Patt Franciosi alerta para a desumanidade de tirar gente de sítios que foram a sua casa ao longo de décadas."Precisam de continuidade no tratamento e de proteção". Uma análise deve ser feita caso a caso, porque alguns poderão mesmo não ter condições para ser desinstitucionalizados, alerta.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Conflito de emoções sem que haja motivo aparente é um aviso de que alguma coisa está errada

Uma insignificante contrariedade provoca uma explosão e minutos após, o arrependimento, da gargalhada à lágrima num piscar de olhos. O descontrole emocional provoca nos relacionamentos uma acidez que se faz sentir ao longo do tempo. À margem da normalidade, os dias se confundem a um ciclone de anseios equivocados.
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Os sintomas: na gangorra, sentados um em cada ponta da prancha, o ‘sim’ e o ‘não’ brincam com o humor feito duas crianças peraltas. A euforia sobe e o medo desce; a depressão chega e o entusiasmo despenca, o pânico vai pro alto e derruba a coragem. Nesse sobe-desce biruta, os sentimentos se embaralham e transtornam o cérebro podendo levá-lo à psicose. O conflito de emoções sem que haja motivo aparente é um aviso de que alguma coisa está errada. Apesar de vivermos num mundo altamente competitivo, conflitante e ameaçador, existem mecanismos dentro de cada um que funcionam como amortecedores e compensadores da insegurança e contrariedades provadas diariamente. A indignação, a raiva momentânea ou uma explosão de alegria, devem caber dentro dos limites da racionalidade, o que exceder a isso é neurose e precisa ser tratada sem tentar justificativas, que somente acentuarão o problema.
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O subconsciente: a psiquiatria tem achado verdadeiros tesouros arqueológicos ao “escavar” a mente humana, o inconsciente que parecia dormir, está mais acordado do que nunca, e inesperadamente desperta assumindo a direção do humor. Sem explicações, o indivíduo adota uma personalidade até então oculta, mas que na verdade são impulsos castrados, reprimidos e massacrados, que foram fermentando no decorrer do tempo nesta caverna misteriosa chamada cérebro. Ainda no útero o feto capta as vibrações do ambiente externo pelos estímulos materno e as absorvem. As células carregam nossa história, um ressentimento longínquo pode se manifestar décadas depois, justificando a herança genética. Um trauma, mesmo que pareça superado é o gatilho que dispara e abate a pessoa que, conforme dito, repentinamente muda a personalidade. O temperamento “pavio-curto” e o estresse, quando prolongado, enfraquecem o sistema nervoso, pré-dispondo à bipolaridade compulsiva do humor que é uma patologia, e como tal, precisa de tratamento, do contrário, a insanidade pode ser o próximo passo.
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(fonte: Última Hora News Seção: Artigos Cinetíficos Data: 23/09/2008)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Reportagem da revista Marie Claire - "Minha vida com uma mãe bipolar" (edição 209 - set/08)

A professora universitária Rakell Aguiar, de 28 anos, passou a infância entre caixas de remédios de tarja preta e clínicas psiquiátricas. Sua mãe, Ábia, sofria de transtorno bipolar e, por causa dos surtos, também vivia batendo na única filha. As tentativas de suicídio da mãe e os períodos em que ela ficava prostrada na cama também marcaram a adolescência de Rakell, que encontrou no pai uma espécie de anjo protetor. Hoje, seis meses depois da morte da mãe, Rakell lamenta a sua ausência. 'Apesar de não termos tido um relacionamento amoroso, desses de mãe e filha, sinto que a falta que ela faz é enorme.'
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'Não precisava ter um motivo para apanhar da minha mãe. Por isso, eu cheguei a desejar a morte dela'
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Vai fazer seis meses que minha mãe, Ábia, morreu. Ela tinha 50 anos e foi vítima de um mal causado pelos remédios que ela tomava para tratamento de transtorno bipolar. Só que o que eu quero contar é minha história com ela. Nasci exatamente nove meses depois do casamento dos meus pais -eles se casaram em 23 de fevereiro de 1979, e vim ao mundo em 23 de novembro do mesmo ano. Minha mãe teve depressão pós-parto e, a partir daí, nossas vidas seguiram um rumo confuso e doloroso. Cresci vendo-a oscilar entre a depressão profunda e os surtos de raiva e histeria. Foi internada muitas vezes em clínicas psiquiátricas. Das mais diversas. Em Goiânia, onde nasci e vivo hoje com meu marido, vários psiquiatras conheceram minha mãe.
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Meu pai contava que os sintomas da doença apareceram no período de gravidez, quando minha mãe inventava que era outra pessoa, a Branca. Quando nasci, ela não me reconhecia e tentava me fazer mal, me machucar. Até hoje, me dói pensar que não tenho boas lembranças da infância. A única coisa que lembro são as inúmeras surras que levei. Morava perto de minha madrinha e aprendi a pular o muro para fugir de minha mãe. Aos 5 anos, já sabia andar sozinha de ônibus para ir à casa de duas tias, que moravam cada uma em um canto da cidade. Se a madrinha não estava, corria para a casa de uma delas.
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A relação dos meus pais era conturbada, com brigas envolvendo a família de ambos. Ele não aceitava a forma como a família de minha mãe se relacionava com ela, e ela não gostava da família dele. Mas meu pai estava sempre presente, nunca chegava atrasado em casa, nunca saía com os amigos. Era um devoto de minha mãe.
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Dos 5 aos 10 anos, minha vida era ir à escola com o corpo cheio de marcas. Qualquer coisa, como uma almofada fora do lugar, era motivo para pancadas. Minha mãe era forte, apanhar dela era doloroso. Por causa dos remédios, chegou a pesar 120 quilos. Meu sonho era que meu pai se separasse para que eu pudesse viver só com ele. Chegava a pedir, mas ele dizia que iria até o final, que casamento era um só. Ele levava a sério a história 'juntos na saúde e na doença'.
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Aos 10 anos, lembro de minha mãe deprimida em cima de uma cama. Nessa situação, as surras eram menos freqüentes porque ela dormia praticamente o tempo todo. Uma vez, ela me pediu um copo de água para tomar Lorax, um calmante que ficou marcado na minha memória. Levei, e ela engoliu vários comprimidos de uma vez. Naquele dia, falei que não pegaria mais água para ela tomar remédio. Que se quisesse se dopar, se doparia sozinha, e assim foi. Ela fez tratamento durante anos para se livrar da dependência desse remédio. Depois, voltou a tomá-lo. Quando eu vi aquela caixa de novo em casa, tive uma crise de choro. Foi como se eu tivesse encontrado o Diabo.
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Na escola, nunca tive notas baixas. Aliás, o estudo foi a forma que encontrei para conseguir viver em paz e evitar mais sofrimento. Sabia que, enquanto estivesse estudando, minha mãe não iria me bater. E acabei me tornando uma ótima aluna. Na época das manias dela, passava o dia todo na escola, só voltava quando meu pai já tinha chegado. Todo mundo sabia do problema, até porque eu vivia com marcas no corpo. Por isso era paparicada pelas professoras. Quando minha mãe estava melhor -nem na fase das manias, nem da depressão- até que era legal ficar com ela. Divertida, vaidosa, organizada com a casa. Essas foram as qualidades que herdei.
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Na minha adolescência, nossa relação piorou. Minha mãe nunca me proibiu de namorar, nem de sair. Eu ficava bem pouco em casa. Passava o dia todo na casa de amigos, até meu pai chegar. Mas os conflitos entre mim e ela aconteciam por nada. Lembro-me até hoje da última surra que levei, aos 17 anos. O quarto estava desarrumado, ela entrou e começou a me bater. Um dos tapas deixou meu olho roxo. Corri pra casa de uma tia, mas minha mãe me seguiu, foi até lá me pegar. No dia seguinte, eu tinha prova na escola -estudava no melhor colégio da cidade, meu pai se esforçava para me dar a melhor formação possível. Fui de óculos escuros e tive que escutar a zombaria dos colegas. No entanto, mais uma vez me saí bem nas provas.
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Nas inúmeras brigas que travava com meu pai, minha mãe dizia sempre que tinha ficado doente porque ele a proibiu de trabalhar -reza a lenda que ela foi muito ativa, bonita e com presença forte. Depois que se casou, passou a viver só para o meu pai e para mim, mas não gostava da condição de pedir tudo para ele. Além disso, ela era vaidosa, e meu pai não ligava para isso. Qualquer coisa que ela queria, era uma briga e tanto. Eu olhava para aquilo tudo e pensava: 'Nunca vou ser igual a ela'.
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Aos 18 anos, prestei vestibular para a Universidade Federal de Goiás e a Católica de Goiás -um para Jornalismo, outro para Psicologia. Passei nos dois, mas fiz o primeiro. Em 1999, comecei a trabalhar, e minha casa virou uma pensão: eu só ia lá para dormir e tomar banho. No início de 2000, minha mãe foi para a casa da mãe dela, no interior de Goiás. Eu e meu pai ficamos em Goiânia. Mas não durou muito: em cinco meses, ela voltou, depois de brigar com os irmãos e com a minha avó.
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Nessa época, ela foi parar em uma clínica, onde ficou durante quatro meses. Tentavam tirar dela o vício dos remédios. Era assim: o médico receitava dois comprimidos, ela tomava oito e de cinco tipos diferentes. Nessa fase da desintoxicação, tentou o suicídio quatro vezes, cortando os pulsos. Meu pai estava sempre atrás para tirar a faca da mão dela. Depois, ainda foi inter-nada em outra clínica, onde presenciei uma das piores cenas da minha vida: eu a vi amarrada na cama.
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Meu pai vendeu a nossa casa, onde morávamos há mais de 15 anos, de um dia para o outro, sem grandes explicações. Mudamos para uma alugada. Com o dinheiro, ele comprou um terreno e, aos poucos, construiu uma nova casa. Na época, eu me formei e comecei a trabalhar mais para não ficar muito em casa. Depois de dois namoros complicados, eu conheci Maykell, que era diagramador no jornal onde eu trabalhava. Ele tinha uma namorada e um filho. Eu também namorava.
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Foi um tempo em que minha mãe estava em outra fase conturbada. Ela não gostava de ficar sozinha, mas também não agüentava ninguém perto dela. Ficava internada, voltava para casa e era sempre agressiva, implicando comigo. Passaram uns meses, Maykell me avisou que tinha terminado o namoro e me convidou para ir ao cinema. Tentei resistir, mas não consegui -ele sempre foi muito sedutor. No início, minha mãe não gostou dele, mas Maykell acabou por conquistá-la.
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Como a relação com a minha mãe era difícil, pensei em ir morar sozinha. Mas meu pai foi contra, Maykell também. Dizia que, se era para eu sair de casa, que fosse viver com ele. Em pouco tempo, quase quatro meses depois do início do namoro, já morávamos juntos e com o casamento civil marcado para dali a um mês. Fizemos uma festa informal e iniciamos nossa vida de casados. Confesso que não tinha prazer em conversar com a minha mãe, que sempre ligava para reclamar de doença, falar mal do meu pai, da família, enfim, tudo aquilo de que eu tinha lutado para me livrar. Casada, morando em outro bairro, não queria mais me submeter a isso. A pessoa que tem transtorno bipolar sofre com fases de depressão e ansiedade, mas, com a medicação, é capaz de se manter em um meio-termo. No entanto, com o passar do tempo, os remédios não faziam mais efeito para a minha mãe.
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'Só hoje sei que devo muito a ela. Eu aprendi com os erros que minha mãe falava ter cometido em sua vida'
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Os dois últimos anos foram terríveis, especialmente para o meu pai, que era o 'guardião da mulher'. Ela havia engordado tanto que não conseguia nem tomar banho sozinha. Passava a noite toda gritando, e meu pai, que trabalhava durante o dia, na hora de descansar não podia pregar o olho. Acabou tendo um surto de estresse. Mais uma vez, ela foi internada, mas eu parei de visitá-la. Ir àquelas clínicas era reviver os piores momentos da minha vida. Ver minha mãe dopada de remédios me enlouquecia...
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Mesmo sem vê-la, entendi que a situação era grave. Quando ela saiu da clínica, meu pai não conseguia mais ajudá-la, estava exausto. Ela, então, entrou numa tremenda crise de ansiedade e não ficava cinco minutos no mesmo lugar. Queria estar dopada o tempo todo para não ver, nem sentir o mundo. Marcar horário com ela era o fim: perguntava as horas de 30 em 30 segundos. Nos últimos seis meses da sua vida, minha mãe ficou a maior parte do tempo internada. Ia para casa no final de semana, mas entrava em crise e não conseguia ficar perto das pessoas. Eu não sabia como agir, só chorava... Não agüentava mais vê-la daquele jeito e fui fazer terapia.
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Nessa época, eu já era professora universitária e, numa quarta-feira do final do semestre, com trabalhos para corrigir e provas para aplicar, comecei a me sentir mal de repente. Era um aperto no peito. Como tinha dormido tarde na noite anterior, acordei angustiada e cansada. Eu e meu pai conversamos pelo telefone, e disse que não queria mais ver a minha mãe. Bravo, ele me fez enxergar que eu não podia fugir do problema.
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Às 9h30 da manhã, ele me telefonou de novo para contar que minha mãe tinha sofrido uma queda e batido a cabeça. Desabei. Cheguei ao hospital e não acreditei no que vi. Parecia que ela tinha sofrido uma convulsão: estava agitada, não reconhecia ninguém e tinha um enorme corte na cabeça. Foi internada com o diagnóstico de síndrome neuroléptica maligna em decorrência do uso contínuo e excessivo de remédios. O caso era grave e havia risco de vida. Era uma quinta-feira. No domingo pela manhã, 16 de dezembro passado, ela sofreu uma parada cardíaca e morreu.
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Apesar de nunca termos tido um relacionamento amoroso, desses de 'mãe e filha', a falta que ela faz é enorme. Nas brigas que tínhamos, eu desejava a morte dela, falava que não iria chorar quando morresse. Bobagem! Aquela velha história de que 'mãe é mãe' é verdadeira.
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Hoje, graças a Deus, tenho um casamento abençoado. Brigas aqui em casa só de ano em ano, porque ninguém é perfeito. Eu procuro respeitar o meu marido como ele é, e a família dele também, porque respeito é fundamental. Quando vierem os filhos, sei que jamais terei coragem de levantar a mão para eles. Sou radicalmente contra a palmada.
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Tenho medo de sofrer desse transtorno. Como existe a hipótese de a doença ser hereditária, faço acompanhamento médico e procuro manter a vida saudável, com boa alimentação e exercícios físicos. É uma prevenção em razão do que acompanhei com minha mãe. Sigo confiante, acreditando na vida. Não penso em parar de trabalhar e, se hoje consegui vencer na vida, devo muito a minha mãe. Aprendi com os erros que ela dizia ter cometido.'

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Documentário sobre Bipolaridade! Deixe seu contato...

Estamos realizando um documentário sobre a "Bipolaridade". Nossa equipe esta atualmente na etapa da elaboração. Seria muito importante incorporar alguns depoimentos e gostaríamos de poder contar com vocês nesse projeto.
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Só para explicar, seus depoimentos servirão para a estruturação do projeto, onde descrevemos o assunto e a abordagem cinematográfica que daremos a ele. Estamos considerando três grupos de personagens - Pacientes/Familiares/Médicos.
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Quem quiser fazer parte desse projeto, por favor deixe seu e-mail no comentário que enviaremos as perguntas.
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Desde já agradecemos a colaboração de todos! Abraços, Juliana Bittencourt

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Eletrochoque (REPORTAGEM MUITO BOA)

Na era dos antidepressivos, o mais controverso dos tratamentos psiquiátricos está de volta depois de décadas de ostracismo (fonte: Revista Piauí, 25/06/08)
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Trancuilo Tezoto caminhou lentamente até uma fileira de cadeiras pretas. Acomodou-se em uma delas, dobrou o corpo, descalçou os sapatos e as meias, tirou um par de sandálias de borracha de uma sacola de plástico e as ajeitou nos pés. Endireitou o corpo, tirou a dentadura e a aliança e as entregou a sua mulher, Inês, para que as guardasse. Recostou a cabeça na parede e respirou fundo, como se aquela operação banal lhe tivesse custado um esforço sobre-humano. Há quase cinco meses, duas vezes por semana, o metalúrgico aposentado Trancuilo Tezoto repete o mesmo ritual. Aos 69 anos, ele tem os cabelos um pouco grisalhos e uma calva que começa a se pronunciar. Os seus olhos parecem estar sempre marejados. Aos sussurros, ele definiu a depressão que há três anos o corrói: “É uma dor sem fim, uma angústia e uma tristeza que não passam nunca, um mergulho permanente no horror.” Esse estado de espírito é acompanhado por fortes dores na nuca, inapetência e um cansaço infindável, exacerbado por noites agitadas e insones. Desde que afundou na depressão, Tezoto tomou um sem-número de medicamentos. Nenhum deles fez efeito. “Ele simplesmente não melhora”, disse Inês. “Vê-lo assim é morrer um pouco a cada dia.”
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Eram oito e meia da manhã de uma quarta-feira. O ex-metalúrgico fora um dos primeiros pacientes a chegar ao ambulatório psiquiátrico do Hospital das Clínicas de São Paulo, onde seria submetido a mais uma sessão de eletroconvulsoterapia, ou ECT, o novo nome para um dos mais atacados tratamentos psiquiátricos, o eletrochoque. Tezoto passara por 35 aplicações, o triplo das sessões consideradas suficientes para ultrapassar uma crise depressiva. Os efeitos não se fizeram sentir, embora ele admita que, nos dias em que toma choque, se sinta um pouco mais aliviado. Uma enfermeira sorridente logo o chamou. “Eu durmo e não sinto nada”, explicou Tezoto, sem ansiedade, antes de desaparecer por uma porta entreaberta.
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A sala de espera do ambulatório foi se enchendo aos poucos e, às 9 horas, já havia quinze pacientes aguardando a vez. As portas coloridas do ambulatório e a televisão de plasma, ligada permanentemente, disfarçavam a desalentadora atmosfera hospitalar. Ansiosa, uma senhora que passaria pelo seu primeiro choque perguntou à vizinha sobre os resultados do tratamento. A resposta pareceu encorajá-la. Sua interlocutora acompanhava a irmã, que, segundo ela, depois de poucas sessões melhorara bastante. Com todas as cadeiras ocupadas, a sala estava em silêncio, como se um fundo cansaço tomasse conta de todos: quem chega ali passou por todos os tratamentos possíveis para os sofrimentos da alma, e vê no choque um recurso extremo e final.
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Criado há setenta anos, e praticamente banido da psiquiatria por quase quatro décadas, o eletrochoque voltou com força. Instituições de prestígio, como o hospital da Universidade Harvard, atendem pacientes voluntários para a eletroconvulsoterapia. Nos Estados Unidos, mais de 100 mil pacientes se submetem ao tratamento a cada ano. O Hospital das Clínicas é um dos poucos que nunca deixaram de usá-lo, desde que ele foi introduzido ali, nos anos 40. No final da década de 90, porém, o número de pacientes não chegava a dez por semana – hoje são oitenta. “Essa é agora a ala mais movimentada do hospital psiquiátrico”, contou Sérgio Rigonatti, psiquiatra-chefe do ambulatório de ECT. “O preconceito que estigmatizou o eletrochoque vai aos poucos desaparecendo.”
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O tratamento amigável e respeitoso que Rigonatti recebe dos pares nos corredores do Hospital das Clínicas é indício do atenuamento do estigma. Nos anos 80, colegas lhe pespegaram um apelido depreciativo, “Tigre”, sinônimo de mau profissional. Ele credita a má fama à sua defesa do eletrochoque e insistência em manter o serviço em funcionamento, no período em que a maioria dos departamentos psiquiátricos havia abandonado a técnica. “A sociedade e os médicos viam o eletrochoque como coisa de carniceiro, de torturador”, disse Rigonatti. “Ideologizar o tratamento foi um dos maiores erros que a classe médica poderia ter cometido, pois condenou milhares de pessoas a sofrimentos desnecessários.”
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A ECT é agora prescrita para a depressão intensa e continuada, desordem bipolar (que alterna estados de euforia e depressão), alguns casos de mal de Parkinson, de catatonia (colapso emocional que paralisa o paciente) e de esquizofrenia (doença que, entre outros sintomas, provoca alucinações, reações violentas ou completa apatia). “Em algumas situações, o eletrochoque é o único recurso que pode tirar os pacientes de crises depressivas e afastar o risco de suicídio”, disse, no Rio, o psiquiatra Marco Antonio Brasil, ex-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria e atual conselheiro da entidade. Ele considera que os excessos cometidos por clínicas e hospitais provocaram “uma reação negativa à própria terapia, e não apenas à sua má utilização”.
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Até os anos 30, os tratamentos psiquiátricos se restringiam basicamente à psicoterapia. Pouco se podia fazer com os internados a não ser sedá-los com barbitúricos e mantê-los sob vigilância permanente, para que não fizessem mal a si mesmos ou a outros. Assim, pacientes podiam passar o resto da vida em manicômios. Com a observação hospitalar, descobriu-se que esquizofrênicos, quando sofriam também de epilepsia, tinham melhora expressiva logo após os ataques epiléticos. Em 1917, o neuropsiquiatra austríaco Julius Wagner-Jauregg criou a malarioterapia, para induzir os ataques. O tratamento consistia em inocular a malária no paciente, para que a febre alta resultante provocasse convulsões e, em decorrência, atenuasse os sintomas. Dez anos depois, a pesquisa lhe rendeu o Prêmio Nobel de medicina. Em 1934, o médico húngaro Ladislas von Meduna testou o uso do óleo de cânfora, para causar as convulsões. Dois dias após a quinta aplicação, o seu paciente esquizofrênico levantou-se da cama e começou a falar, pela primeira vez em quatro anos. Apesar do sucesso, as dores e aflições lancinantes, que a cânfora provocava antes das convulsões, fizeram com que o tratamento fosse abandonado.
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O eletrochoque se baseia também na indução de ataques. Ele foi aplicado pela primeira vez pelo médico italiano Ugo Cerletti, que colocou dois eletrodos sobre a cabeça do paciente e provocou a convulsão por meio da corrente elétrica. O paciente inicial foi um homem de 39 anos, encontrado em estado delirante, numa estação de trem, em Roma. Diagnosticado como esquizofrênico, em 14 de abril de 1938 ele foi submetido à primeira sessão de eletrochoque. Quando acordou, Cerletti perguntou-lhe: “O que aconteceu com você?” A sua resposta, segundo o relato do médico, foi: “Não sei, talvez eu tenha dormido.”O grande inconveniente dos eletrochoques, no início, era serem feitos sem relaxamento muscular e anestesia. Os doentes se debatiam e fraturavam os ossos. Também vomitavam, engoliam as secreções, contraíam doenças respiratórias e, às vezes, morriam sufocados. Os equipamentos, sobretudo em hospitais públicos, eram mal regulados, o que fazia com que os choques fossem excessivos ou ineficazes. Nesse quadro, o tratamento ficou associado à violência e ao medo. “Os pacientes eram colocados em fila indiana e seguravam-se uns aos outros, quando iam tomar o choque”, contou Mário Eduardo da Costa Pereira, professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp. A maioria deles era forçada a se submeter à terapia, bastando que um médico a prescrevesse. Entre os anos 40 e 50, estima-se que 1 milhão de americanos tenham recebido choques compulsoriamente. Para piorar, o eletrochoque veio a ser usado como punição. “Era comum, em hospitais de todo o mundo, os pacientes mais rebeldes serem submetidos ao eletrochoque à vista dos outros, para que o suplício servisse de exemplo”, disse Pereira.
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No final dos anos 40, no Hospital Bellevue, em Nova York, crianças de menos de 4 anos, diagnosticadas como esquizofrênicas, receberam choques diários para ficarem, como diz um relato da época, “menos excitadas e ansiosas”. Pesquisas posteriores constataram que menos de 30% delas eram de fato esquizofrênicas; a maior parte tinha apenas desordens de comportamento que hoje seriam catalogadas como hiperatividade. Durante a Guerra Fria, em busca do aperfeiçoamento de técnicas de lavagem cerebral, a CIA financiou as pesquisas de um psiquiatra chamado Donald Ewen Cameron, que submeteu seus pacientes a sessões de eletrochoque. Nos anos 60 e 70, o uso de choques como instrumento de tortura foi registrado na Hungria, na União Soviética e na Argentina.
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Num final de tarde, Austregésilo Carrano fumou quinze cigarros durante uma hora de conversa numa mesa de bar, em uma transversal da avenida Paulista. Quando tinha 17 anos, seu pai achou um cigarro de maconha no seu quarto e encaminhou-o para tratamento médico. “Fui diagnosticado como esquizofrênico e recomendaram eletrochoques”, contou Carrano. Durante um ano e meio, foi submetido a 21 sessões de eletrochoque. Às seis horas da manhã ele era trancafiado num quarto. “Eram quatro horas de imensa agonia até a chegada do psiquiatra.” Quando o médico aparecia, ele era imobilizado na cama por dois enfermeiros que forçavam seus joelhos contra o tórax. Enfiavam-lhe então um tubo de plástico na boca para que não mordesse a língua. Dois eletrodos eram colocados nas têmporas, e a máquina disparava os choques por 25 segundos, provocando convulsões de quase dois minutos. “A sensação era de morte”, contou Carrano. “A convulsão era tão violenta que eu desmaiava”, além de vomitar, urinar e defecar nas roupas. No tratamento, quebrou dentes e fraturou uma clavícula e o maxilar.
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Carrano contou o seu drama no livro Canto dos Malditos, transformado depois no filme Bicho de Sete Cabeças, dirigido por Laís Bodanzky. Hoje ele integra o Movimento Antimanicomial, que defende o fim das internações em manicômios e dos tratamentos com eletrochoque. “Não posso acreditar que essa terapia do terror traga qualquer efeito positivo”, disse. “A mim, só causou dor, desespero, revolta. Durante anos, vivi escondido, fugindo das pessoas, completamente traumatizado.”
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A enfermaria de eletroconvulsoterapia do Hospital das Clínicas de São Paulo tem cinco camas, separadas por biombos. Numa manhã de quinta-feira, todas elas estavam ocupadas. Alguns pacientes dormiam, sob o efeito da anestesia. Outros começavam a despertar. Uma enfermeira mediu a pressão arterial de um homem de 41 anos, auscultou o seu coração e o interrogou sobre dores ou mal-estar. Ela analisou o seu hemograma, o exame de urina e as taxas de glicose, uréia e potássio. Um psiquiatra entrou e avisou que estava tudo pronto. O homem foi levado a um pequeno centro cirúrgico, onde um clínico e um anestesista lhe fizeram um eletrocardiograma. Aplicaram-lhe anestesia geral (de quinze minutos de duração) e um relaxante muscular. Dois eletrodos foram fixados na sua cabeça, e através deles o psiquiatra fez circular uma corrente elétrica por seis segundos. O paciente mexeu levemente um dedo do pé. Desacordado, voltou vinte minutos depois à enfermaria, acompanhado por um enfermeiro. Ao despertar, com biscoitos quebrou seu jejum iniciado às 22 horas do dia anterior e foi liberado para voltar para casa.
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No final dos anos 80, era raro acontecer de pacientes irem espontaneamente a um hospital para receber eletrochoques. A mudança ocorreu aos poucos. Os Estados Unidos, onde o procedimento chegou a ser proibido em 32 Estados, foram o primeiro país a reabilitá-lo. No Brasil, em junho de 2002, o Conselho Federal de Medicina baixou uma resolução normatizando seu uso. A resolução aponta a técnica como “um tratamento eficaz e seguro, mas que só deve ser aplicado em ambiente hospitalar”. O documento enumera uma série de exigências, tais como “obter o consentimento por escrito do paciente, e, em caso de seu impedimento, a responsabilidade recai sobre os seus familiares”. Também determina que é “obrigatória a avaliação das condições cardiovasculares, respiratórias, neurológicas e odontológicas do paciente” e que “o eletrochoque só poderá ser aplicado sob anestesia”.
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Apesar das exigências, o Ministério da Saúde ainda vê o tratamento com reservas. A Lei Antimanicomial, aprovada em 2001 para reduzir as internações em hospitais públicos, autorizou o eletrochoque apenas aos pacientes internados. No eixo Rio–São Paulo, ele só é realizado no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro e no Hospital das Clínicas, que pertence ao governo paulista. Como o Sistema Único de Saúde, o SUS, não cobre o tratamento ambulatorial, quem sustenta o serviço paulista é a rede estadual. Essa situação gera um mal-estar entre as esferas federal e estadual de saúde.
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O psiquiatra Elias Monteiro Lino é um homem expansivo cujo bom humor se desfaz quando discute o pagamento da eletroconvulsoterapia. Coordenador do Departamento de Saúde Mental durante o governo de Mario Covas, Lino defende os eletrochoques. “Se ele é o único tratamento que surte efeito, por que o Ministério da Saúde não garante o seu acesso às pessoas mais pobres?”, perguntou. No Hospital das Clínicas, a maior parte dos pacientes de eletrochoque é composta de particulares. Eles desembolsam 500 reais por sessão. Enquanto isso, os pacientes do SUS precisam se candidatar a uma vaga. “A fila de espera é enorme”, disse Selma Lopes Pacheco, enquanto aguardava o retorno da filha de 21 anos, que se submetia à eletroconvulsoterapia para tratamento de um transtorno bipolar. “Ainda bem que eu consegui que ela fosse atendida pelo SUS, porque não teria a menor condição de pagar o tratamento".
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Para o psiquiatra Pedro Gabriel Delgado, coordenador nacional do Serviço de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, “o eletrochoque serve para casos muito específicos; não podemos banalizar o seu uso. Nossa preocupação é dar um tratamento mais humano aos doentes mentais e, na maioria dos casos, os medicamentos fornecidos pelo Ministério atendem a essas necessidades”. Ele é irmão do ex-deputado Paulo Delgado, do PT de Minas Gerais, autor da Lei Antimanicomial. Sua prioridade são os Centros de Atendimento Psicossocial, os Caps, postos de saúde psiquiátricos onde o paciente passa o dia, voltando para casa à noite. Para Pedro Delgado, o eletrochoque não deve ser adotado como política pública.
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A Clínica da Gávea é um hospital psiquiátrico privado no Rio que fica no meio de um parque. Ali, num casarão amarelo, a psiquiatra Julieta Guevara instalou um serviço de eletroconvulsoterapia. Numa sala de apenas dois leitos, a psiquiatra faz cinco atendimentos por dia, acompanhada de um anestesista e de um enfermeiro. Os procedimentos começam às seis horas da manhã e terminam por volta do meio-dia. A procura é grande porque psiquiatras de todo o Brasil encaminham pacientes para a clínica. Cada sessão custa 700 reais. “O eletrochoque virou um tratamento de elite”, lamentou a psiquiatra Julieta Guevara. O pesquisador Harold Sackeim também confirma isso ao dizer que, nos Estados Unidos, “a ECT é muito mais empregada em clínicas particulares e em hospitais universitários. Os pacientes que recebem o tratamento são justamente aqueles de maior poder aquisitivo e que têm acesso a profissionais mais conceituados e experientes”.
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Até a metade dos anos 50, o eletrochoque era o tratamento mais usado para doenças mentais severas. A psicoterapia era eficiente nos casos de neuroses – o que hoje se chamaria de ansiedade –, mas era incapaz de tirar um paciente de uma crise catatônica ou de um estado psicótico (quando o paciente sofre alucinações). A situa-ção mudou com o incremento da psicofarmacologia. Em 1954, o laboratório Smith-Kline (hoje Glaxo Smith-Kline) lançou o Thorazine, que atenua os sintomas de psicóticos. Em seguida, vieram o Tofranil e o Elavil para tratar quadros depressivos, o Lithium para a mania e o Haldol, também para as psicoses. Só com o Thorazine, em 1970 os lucros do Smith-Kline chegaram a 116 milhões de dólares. “Para os médicos, era muito mais fácil e menos controverso indicar medicamentos do que o eletrochoque”, explicou o psiquiatra Marco Antonio Brasil.
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Nos anos 80, uma nova geração de medicamentos, os inibidores de recaptação de serotonina, como o Prozac e o Zoloft, pareciam ser a solução final para todos os sofrimentos mentais. Mas, já ao final da década, médicos, pesquisadores e pacientes começaram a perceber que essas drogas não funcionavam para todo mundo e, para alguns, os efeitos colaterais podiam ser devastadores.
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Em 1985, o Instituto Psiquiátrico do Estado de Illinois fez uma revisão dos estudos sobre a eletroconvulsoterapia. Ela revelou que pacientes submetidos ao eletrochoque tinham 20% a mais de chance de melhorar do que aqueles tratados com antidepressivos tricíclicos, e 45% se comparados aos submetidos a outros tipos de medicação. E um estudo feito na Alemanha, em 1997, concluiu que a ECT era “claramente superior e substancialmente mais rápida” do que o tratamento com Paxil, um dos antidepressivos considerados mais eficazes.
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Sentada numa cadeira de rodas, para evitar riscos de queda depois da sedação, Aurora Lopes, de 74 anos, saiu sorridente do ambulatório psiquiátrico. Sua filha Eliane a acompanha a cada três meses ao Hospital das Clínicas. Com a morte de dois filhos e do marido, Aurora passou sete anos numa depressão arrasadora: não comia, não dormia e não falava. Chegou a pesar 35 quilos e passou a ser alimentada por meio de sonda. Veio a tomar onze comprimidos por dia, mas vivia o tempo todo agitada, dizendo que queria morrer. A angústia era tão grande que ela se atirava no chão e batia com a cabeça na parede. “Tínhamos que amarrá-la para que não se ferisse”, contou a filha. “Era muita aflição que eu sentia”, explicou Aurora. Finalmente a filha apelou para o eletrochoque. “Na quarta sessão ela já começou a apresentar melhoras. Na 12ª voltou a conversar, a se interessar por tudo. Agora ela sai, viaja e leva uma vida normal.”
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Os cientistas não têm uma explicação conclusiva sobre o mecanismo do eletrochoque. Ainda não se sabe, por exemplo, por que a terapia é mais eficiente nas depressões graves e nos transtornos bipolares. As diversas células do cérebro comunicam-se através de pulsos energéticos, a neurotransmissão. Vários neurotransmissores – substâncias químicas que intervêm no processo – já foram identificados. Um é a dopamina, associada à sensação de prazer. Outro é a serotonina, envolvida no controle do sono, do apetite e do humor. Um terceiro é a adrenalina, que é ativada nas situações de perigo, preparando o organismo para o combate ou a fuga. Em casos de transtornos mentais, esses neurotransmissores entram em pane. Na depressão, imagina-se que as informações de bem-estar cheguem truncadas. O resultado é a apatia, a tristeza, a angústia, a insônia. “É como a brincadeira do telefone sem fio”, comparou Julieta Guevara, durante uma conversa em seu consultório na Barra da Tijuca. “A informação passada através de um cochicho nunca chega correta até o último da fila.” Da mesma forma, quando algo na neurotransmissão começa a sair errado, parte da informação se perde, e, como os neurônios no final da linha não sabem o que se espera deles, dá-se a confusão, da qual resultariam os transtornos mentais.
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Julieta Guevara acredita na hipótese de que os estímulos provocados pelo eletrochoque limpem as conexões entre os neurônios, de modo que a neurotransmissão passe a se realizar de forma clara, resultando na volta do equilíbrio da mente. O psiquiatra Sérgio Rigonatti utiliza uma velha imagem para tentar ilustrar o efeito da terapia: “É como o tapa que dávamos nos antigos televisores, para que a imagem defeituosa voltasse ao normal.” O “tapa” elétrico no cérebro provocaria uma desconexão momentânea dos neurônios, que seriam religados de maneira diferente.
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A convulsão pode ser provocada por diferentes formas de ondas elétricas. Até o começo dos anos 90, a onda empregada era semelhante à corrente elétrica que se obtém numa tomada de parede, gerada por uma voltagem média de 120 volts. Nos aparelhos mais recentes, a corrente elétrica aumenta e diminui rapidamente, de maneira que os impulsos elétricos sejam breves. Por serem mais parecidos com os sinais produzidos pelo próprio cérebro, tais pulsos são mais rápidos e eficazes na indução das convulsões e reduzem os efeitos colaterais como o enjôo e a dor de cabeça. Com isso, a duração da descarga elétrica ficou reduzida para, no máximo, oito segundos, enquanto nos aparelhos mais antigos podia chegar a quase meio minuto.
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O psiquiatra Rafael Bernardon Ribeiro, do Hospital das Clínicas de São Paulo, passou a defender o eletrochoque quando fez residência, há três anos. “Mas não se deve transformá-lo numa panacéia para todos os males da mente, como ocorreu com os antidepressivos”, ele explica. Ribeiro sustenta também que o tratamento é seguro inclusive para grávidas, “porque as drogas podem afetar o feto”. Ainda assim, acredita que é preciso tentar os medicamentos. “O eletrochoque é quase um procedimento cirúrgico, em função da anestesia”, diz. “Exige jejum de oito horas, é proibido usar unhas pintadas, spray de cabelo, lentes de contato, próteses dentárias, jóias ou qualquer outro objeto que possa causar curto-circuito entre os eletrodos, provocando queimaduras no paciente. E também há efeitos colaterais, como a perda temporária da memória.”
Mathilda Kóvak é o pseudônimo de Ignez Imbassay, escritora e compositora carioca. Ela é uma mulher extrovertida cujo telefone em seu apartamento toca com freqüência. São amigos ou colegas, combinando algum programa ou um novo projeto. Mathilda acabou de lançar um livro infantil, A Caixa de Pandura, e se prepara para iniciar um programa de rádio. Durante mais de trinta anos, ela sofreu de depressão. Aos 15 anos, soube que tinha câncer no fêmur. A cada cirurgia aumentava a sua tristeza. O quadro piorou quando seu pai se suicidou. “Eu fui afundando numa dor sem fim”, contou ela. “As pessoas diziam que eu tinha que me animar. Eu até me esforçava, mas pedir a um deprimido que seja feliz é a mesma coisa que pedir a um paraplégico que ande.” Mathilda passou incólume por todos os tipos de drogas antidepressivas. Há dois anos, recorreu ao eletrochoque. “Na quarta sessão eu já era outra pessoa”, contou ela. “De repente eu saí da escuridão em que vivia. Não sei por que não me receitaram antes.”
Segundo o psiquiatra Marco Antonio Brasil, em uns poucos casos o eletrochoque deveria ser encarado como a primeira recomendação, e não o último recurso. Um deles é quando o paciente apresenta tendências suicidas. “Nessa situação, não há o que pensar: não dá para esperar que os medicamentos e as psicoterapias façam efeito.” O que ocorre, admitiu, é que muitos psiquiatras relutam em receitar o choque. “Não é confortável sugerir esse tratamento, pois as pessoas ainda se espantam e associam a técnica à loucura”, disse ele.
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O Instituto Madison de medicina, em Wisconsin, nos Estados Unidos, lançou recentemente um guia sobre eletroconvulsoterapia, para tranqüilizar médicos e pacientes. O guia atribui ao cinema e à literatura boa parte da má fama do eletrochoque. Hollywood nunca gostou dele. Entre 1948 e a virada do século, foram realizados 22 filmes em que o tratamento aparece como vilão. O mais incisivo foi Um Estranho no Ninho, de Milos Forman, protagonizado por Jack Nicholson. O filme, de 1975, baseou-se num romance de Ken Kesey, um dos expoentes da contracultura nos Estados Unidos. No livro, Randal McMurphy, o personagem interpretado por Nicholson, é transferido de uma colônia penal rural para um hospital psiquiátrico. McMurphy não está doente e espera encontrar no manicômio uma vida mais fácil. A sua rebeldia o transforma em cobaia de uma enfermeira tirânica. O filme mostra o eletrochoque como um instrumento de tortura. No fim, McMurphy é submetido a uma lobotomia e reduzido a um estado vegetativo.
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Um Estranho no Ninho, publicado em 1962, reflete uma época. Nos anos 60 e 70, as instituições psiquiátricas foram consideradas baluartes da violência do sistema contra o indivíduo. Ken Kesey defendia as idéias do psiquiatra italiano Franco Basaglia, um crítico da cultura médica que via o indivíduo como mero objeto de uma intervenção clínica. E o eletrochoque representaria o que há de mais violento e desumano nessa intervenção. O filme de Forman propagou essa visão por todo o mundo. Uma pesquisa feita na Irlanda, em 1983, mostrou que 60% das pessoas que assistiram ao filme passaram a defender o fim da terapia
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A imagem do filme Um Estranho no Ninho não sai da minha mente. Eu lembro dos enfermeiros pulando sobre Jack Nicholson, amarrando-o à cama, onde seu corpo é atormentado por tremores e espasmos violentos. Lembro quão louco ele ficava depois disso. Ele certamente não melhorava muito com as violentas dores de cabeça e todos os tipos de efeitos colaterais. Sou um ser social e estou consciente do que as pessoas pensarão de mim. Estar em tratamento por ECT transforma você em um membro da família dos doentes mentais.”
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O relato é de Kitty Dukakis, mulher do ex-governador de Massachusetts, Michael Dukakis, candidato democrata à presidência dos Estados Unidos em 1988. Durante vinte anos, ela padeceu de depressão e alcoolismo. Kitty tentou todos os medicamentos, e nenhum funcionou. Em 2001, ela decidiu, para espanto de alguns familiares, tratar-se com eletrochoque. Na primeira das doze sessões de sua terapia – feita com o pseudônimo de Jane Dee, para não constranger o marido – ela só conseguiu pensar nas cenas do filme. Ao término do tratamento, Kitty saiu da crise.
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Em 2006, publicou o livro Choque, o Poder Curativo da Eletroconvulsoterapia (ainda não lançado no Brasil). Primeiro, lançou-o na Califórnia, até hoje um dos estados americanos mais refratários ao tratamento. Um capítulo inteiro descreve a maneira como a literatura e o cinema tratam o eletrochoque. Ela sustenta que a ficção fez com que médicos e doentes, aterrorizados, trocassem o eletrochoque pelos medicamentos. Com abordagens preconceituosas, diz Kitty Dukakis, o cinema e a literatura beneficiaram indiretamente os laboratórios farmacêuticos.
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Os antidepressivos continuam a ser vendidos em larga escala. Mas são cada vez mais contestados. Na Inglaterra, estima-se que 3,5 milhões de pessoas tomem inibidores de serotonina. Em um só ano, foram 29 milhões de prescrições dessas drogas, sendo o Prozac, do laboratório Eli Lilly, a mais vendida entre todas. Pesquisas feitas nos Estados Unidos com seis antidepressivos (entre eles o Prozac e o Seroxat) revelaram que eles surtiram efeito em menos da metade dos indivíduos que os tomaram.
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Em A Perda da Tristeza: Como a Psiquiatria Transformou Tristezas Normais em Desordens Depressivas, os americanos Allan Horwitz e Jerome Wakefield, calculam que os grandes laboratórios americanos gastam cerca de 25 bilhões de dólares ao ano com marketing e lobistas. Também contam a história do jogador de futebol americano Ricky Williams. Em 2002, no programa de televisão de Oprah Winfrey, o jogador disse sofrer de uma “timidez dolorosa e crônica”. Descobriu-se depois que Williams fora pago pelo laboratório Glaxo Smith-Kline para falar que sua timidez era doentia. Em 2003, uma propaganda do Zoloft, publicada no American Journal of Psychiatry, mostrava uma jovem cabisbaixa, com um chapéu lhe encobrindo os olhos, e aparecia gravada uma pergunta: “Ela é apenas tímida? Ou isto é uma desordem de ansiedade social?” Logo abaixo, se lia: “Zoloft, agora indicado para desordens de ansiedade social.”
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Em Timidez: Como um Comportamento Normal Se Tornou uma Doença, Christopher Lane acusa os laboratórios de ocultarem os efeitos colaterais da maioria dos antidepressivos. Só nas versões mais recentes do Prozac foram incluídas na bula advertências sobre a possibilidade de tremores incontroláveis, diminuição da capacidade sexual, idéias de suicídio e autodestruição. Em Deixe-os Comer Prozac, David Healy, ex-secretário da Associação Britânica de Psicofarmacologia, censura as companhias farmacêuticas, por terem vendido a idéia de que a depressão seria o resultado direto de uma carência de serotonina no cérebro. Assim, muita gente que poderia estar precisando apenas de aconselhamento foi exposta a riscos desconhecidos.
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Dados da Organização Mundial de Saúde indicam que, no ano 2000, a depressão era a quinta causa de incapacitação. Em 2020, poderá ser a segunda. Porém, são dados que devem ser vistos com cautela. “Até que ponto a tristeza provocada por perdas e frustrações não está sendo confundida com depressão?”, questiona Marco Antônio Brasil. “Sofrimento faz parte da vida. Nem todas as nossas dores podem ser sanadas com remédio.”
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O psiquiatra paulista Jonas Melman, da Secretaria Municipal de Saúde, acha que, apesar dos exageros, os medicamentos são a forma mais adequada de tratar os transtornos da mente. Ele acha lamentável que uma técnica invasiva como o eletrochoque tenha voltado com força ao receituário psiquiátrico. “Como os medicamentos estão cada vez mais eficientes, a necessidade de se recorrer ao eletrochoque deveria ser cada vez menor”, ele afirma. “Em vez disso, cada vez mais pacientes são submetidos a essa terapia.”
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Para Marco Antonio Brasil, a psiquiatria tem deixado em segundo plano a origem psicossocial dos transtornos psicológicos. Muitos deles, como a bulimia, a anorexia, o estresse e a síndrome do pânico, ele diz, são provocados por pressões da vida contemporânea. O psiquiatra Renato Del Sant, do Hospital das Clínicas de São Paulo, defensor dos eletrochoques, vai na mesma linha: “Os remédios estão substituindo totalmente as conversas com os pacientes. Corremos o risco de tratar a doença mental meramente como distúrbio físico, e não como um comportamento humano.”
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Se o paciente está triste, toma Prozac; se está impotente, toma Viagra. A visão biológica é tão preponderante que as escolas de medicina, segundo ele, estão reduzindo a carga horária dos estudos de psicopatologia e aumentando a dos métodos neurocientíficos. “Dessa forma, a psiquiatria tende a desaparecer”, radicaliza Del Sant. “Nos tornaremos neurocientistas, ou neurologistas, deixando a psicopatologia para os psicanalistas.”
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Menos de um mês depois do tratamento com eletrochoque, Trancuilo Tezoto tentou se suicidar. Subiu na laje de sua casa e se jogou de uma altura de quase 5 metros. Dias antes, sua mulher insistira com os médicos da psiquiatria do Hospital das Clínicas para que o internassem. “Os médicos me disseram para tomar conta dele até que surgisse uma vaga no hospital”, ela contou. “Mas ele estava muito triste, esperou um descuido meu e se jogou. Nem os remédios, nem o eletrochoque foram capazes de pôr fim a sua angústia.”


sexta-feira, 20 de junho de 2008

Velho lítio mantém popularidade

William Faulkner: admirado, como Ernest Hemingway, pela razão equivocada de ter sido criativo à custa da coragem de enfrentar transtorno mental sem recorrer ao uso de medicação (fonte:Valor Econômico, seção: Eu& Fim de semana, 13/06/2008)
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Reza a lenda que durante o Império Romano pacientes com crises de mania e melancolia eram encaminhados para uma estação de águas rica em lítio, onde a melhora de seu quadro era visível.
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A história da utilização do elemento químico como estabilizador de humor é tão fantástica que tem direito a episódios delirantes, como o de um médico que, impressionado com os efeitos estabilizantes do lítio, resolveu adicioná-lo à água de distribuição pública, provocando casos de intoxicação na população.
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A toxidade do lítio, assim como lançamentos supostamente mais avançados da indústria farmacêutica, chegaram a inibir sua prescrição durante décadas. Seus benefícios, porém, eram tão evidentes que o tratamento acabou se impondo na psiquiatria moderna - resgatando a importância da descoberta feita exatamente 60 anos atrás pelo pesquisador australiano John Cade.
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Em 1948, Cade resolveu pesquisar a urina de pacientes com mania, depressão e esquizofrenia e constatou sua maior toxidade em relação à de outras pessoas. Imaginando que o fato estava relacionado à uréia, resolveu ministrar urato de lítio a porcos. Observou que os animais, embora se mantivessem completamente conscientes, tornavam-se letárgicos e indiferentes. No ano seguinte, o australiano testou o lítio em um paciente de 51 anos e os resultados promissores chegaram a ser publicados em uma revista médica, mas sem maior repercussão.
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A descoberta foi esquecida, até que o dinamarquês Mogens Schou publicasse, em 1954, um estudo irrefutável sobre o assunto, incluindo as dosagens seguras que deveriam ser ministradas aos pacientes e seus efeitos profiláticos. Mesmo assim, o psiquiatra não foi prontamente reconhecido, e passou a apresentar suas conclusões de forma persistente em congressos médicos, animado com o tratamento que havia beneficiado uma pessoa de sua família. Schou, na realidade, concorria em atenção com uma leva de descobertas na área de psicofármacos que ocorreu nas décadas de 1950 e 60."Até a década de 1970, o centro das atenções era o desenvolvimento de ansiolíticos e outros medicamentos, que recebiam grandes investimentos da indústria", diz o psiquiatra Valentim Gentil Filho. "O lítio nunca foi patenteado e até hoje não recebe a devida importância da mídia, apesar de ser um medicamento barato e que leva a uma remissão completa na maioria dos casos clássicos de transtorno bipolar." O médico lembra que, naquela época, os psiquiatras não tinham a competência técnica de hoje, e se intimidavam em prescrever um elemento tóxico, com o qual não eram familiarizados. "Além disso, houve uma contrapropaganda, porque os antipsicóticos e antiepiléticos estavam aparecendo com toda força nos Estados Unidos."Encontrado na natureza, o lítio é ministrado aos pacientes na forma de carbonato e precisa ser corretamente prescrito por médicos psiquiatras. No Brasil, a Eurofarma, com 95% das vendas, domina o mercado de carbonato de lítio, que nunca foi especialmente disputado pela indústria por causa de seu baixo preço. Enquanto em outros tratamentos psiquiátricos o custo para o paciente pode chegar a R$ 20 por dia, no caso do lítio, este gasto cai para cerca de R$ 0,60.
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No entanto, a Eurofarma tem visto seu produto ganhar novo status, junto com o maior conhecimento sobre a doença e o resgate do lítio como o estabilizador de humor por excelência. "O carbonato de lítio é a terapêutica básica, uma referência, por ser apropriado em todas as fases do tratamento", diz João Carlos Torrecillas, gerente de marketing da Eurofarma.
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O reconhecimento vem se refletindo nas vendas do medicamento no país. Segundo dados da auditoria Close-Up International, o número de prescrições mensais do Carbolitium - o carbonato de lítio da Eurofarma - aumentou de uma média de 40 mil, em 2005, para 53 mil, este ano.
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Por isso, e por estímulo de indicações de que haveria menor predisposição para o mal de Alzheimer em pacientes portadores de transtorno bipolar medicados com lítio, a empresa inicia este mês uma campanha junto a 7 mil psiquiatras de todo o país. "Vamos distribuir um guia prático do uso do lítio", conta Torrecillas. "Os profissionais mais antigos não encontram dificuldades na prescrição, mas os mais jovens acabam tendo menos informação, por se tratar de um medicamento mais antigo", diz.
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Embora não tenha encontrado uma droga moderna para substituir o lítio, a indústria farmacêutica vem avançando nas pesquisas de medicamentos para casos mais complexos ou mistos, que podem ser combinados com o carbonato de lítio. Na medida em que o conceito de bipolaridade se alarga, e se sobrepõe a outros quadros psiquiátricos e transtornos de personalidade, aumenta o desafio dos médicos para combinar medicamentos, controlar efeitos colaterais e monitorar seus pacientes durante as crises - nem sempre percebidas pelos próprios portadores da doença.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Bipolaridade: especialista alerta para aumento de casos

O número de crianças e adolescentes norte-americanas com transtorno bipolar aumentou 40 vezes, de 1994 a 2003 (fonte: Yahoo Brasil, seção: Ciência & Saúde , SP)

O psiquiatra brasileiro Prof. Dr. Jair C. Soares, radicado nos Estados Unidos, vem ao Brasil no final de novembro para iniciar atividades em sua clínica especializada em transtorno bipolar, depressão e transtornos de ansiedade. Ele traz números como alarmantes do crescimento do diagnóstico de transtorno bipolar entre jovens norte-americanos.

O número de crianças e adolescentes norte-americanas com transtorno bipolar aumentou quarenta vezes, de 1994 a 2003. "Muitos especialistas afirmam que este salto mostra que os médicos estão diagnosticando mais agressivamente o transtorno bipolar em crianças, o que não significa que a incidência está aumentando, mas surpreende", observa o psiquiatra.

O transtorno bipolar é caracterizado por extremas mudanças de humor, que podem incluir raiva, depressão e alegria. Até pouco tempo, pensava-se que a patologia ocorria exclusivamente em adultos. Mas, nos anos 90, psiquiatras começaram a observar mais atentamente os sintomas do transtorno em pacientes mais jovens.Alguns especialistas dizem que a maior conscientização, refletida no aumento dos diagnósticos, permite que jovens pacientes com o transtorno obtenham o tratamento mais precocemente, o que se refletirá positivamente em sua qualidade de vida.Pesquisadores de New York (EUA), Maryland (EUA) e Madri (Espanha) analisaram um Centro Nacional para Estatística de Saúde, calcularam o número de visitas nas quais os médicos registraram o diagnóstico de transtorno bipolar e encontraram um aumento de 20 mil, em 1994, para 80 mil, em 2003, sobre 1% da população com menos de 20 anos de idade.

Amadurecimento - o aumento nos diagnósticos mostra que a psiquiatria está amadurecendo no reconhecimento do transtorno bipolar em crianças. Mas, é preciso tomar cuidado para não confundir esta doença com outros problemas e ainda é preciso amadurecer alguns conceitos. Hoje, por exemplo, não se sabe como diagnosticar precisamente este transtorno, ou se os pacientes diagnosticados nas idades de 5, 6 ou 7 anos serão adultos com esta doença. Pesquisadores têm observado que muitas crianças, qualificadas para este diagnóstico, não desenvolvem as características clássicas do transtorno bipolar em adultos, como manias, e mais provavelmente se tornem deprimidos.Estudo publicado em setembro de 2006, no The Archive of General Psychiatry, mostra que o transtorno se tornou mais comum em crianças do que a depressão, que 2/3 dos pacientes são meninos e que metade dos pacientes identificados têm outros transtornos psiquiátricos, como déficit de atenção. O tratamento das crianças com transtorno bipolar, quase sempre, incluem medicação. A maioria toma uma combinação de duas ou mais drogas e quatro em dez fazem psicoterapia. "Os esquemas terapêuticos são similares aos adotados para adultos", finaliza Soares.

Reportagem sobre Transtorno Bipolar...

Transtorno bipolar: um mal que precisa ser tratado com urgência

O paciente também pode ouvir vozes, sentir que está sendo perseguido, ter insônia, tornar-se imprudente e gastar dinheiro de forma desmedida

Veículo: Yahoo Brasil
Seção: Economia
Data: 05/06/2008
Estado: SP

Atualmente é bastante comum ouvir falar em transtorno bipolar. No passado, esse mal era conhecido como psicose maníaco depressiva, mas teve seu nome alterado pois não representava bem a questão. Trata-se de um distúrbio psiquiátrico que tem como característica principal a acentuada oscilação do humor, ocorrendo alternância de fases de depressão e de aceleração eufórica (mania). Essas oscilações podem causar sérios danos na vida da pessoa. "Nos quadros de exaltação o indivíduo fica acelerado, pensa e fala muito rápido. Ele se sente confiante, poderoso e pode estar alegre e expansivo ou irritável. Ou ainda uma mistura dos dois", explica Montezuma Pimenta Ferreira, psiquiatra do Hospital das Clínicas e do Sírio Libanês, em São Paulo. "O paciente também pode ouvir vozes, sentir que está sendo perseguido, ter insônia, tornar-se imprudente e gastar dinheiro de forma desmedida", complementa Flávio Gosline, psiquiatra do Hospital do Servidor Público Estadual e da Clínica de Psicologia da Unip, também na capital paulista. Já durante o quadro depressivo, segundo Gosline, a pessoa chora mais facilmente, tem o prazer de realizar atividades diminuído (anedonia), sofre alterações no apetite, apresenta insônia ou hipersonolência, tem diminuição da libido, agitação ou lentificação motora e fadiga, além de sentir-se inútil, ter falta de concentração e, em casos mais graves, idéias suicidas.

Ao contrário de algumas doenças, que só surgem em idade mais avançada, o transtorno bipolar se manifesta entre os 15 e os 25 anos. Entretanto, ele tende a afetar mais os filhos de pais que têm a doença. Diferentemente dos adultos, nos quais os sintomas são mais claramente definidos, nas crianças e adolescentes há oscilações muito rápidas do humor, entre depressão e mania, muitas vezes num dia.

TRATAMENTO - Por isso é fundamental que o transtorno bipolar seja diagnosticado o mais cedo possível e tratado rapidamente. Além disso, essa terapia precisa ser mantido. "O tratamento é feito à base de remédios e o paciente precisa dormir. Quando não dorme, a pessoa fica transtornada e irritável. Também é importante retirar substâncias que piorem a exaltação como álcool, drogas, se o indivíduo foi consumidor delas, e até determinados remédios", diz Ferreira. Infelizmente, não há cura para esse mal. "Trata-se de uma doença recorrente. A grande maioria dos pacientes terá uma recorrência nos seis primeiros meses que tentar ficar sem medicação. Na fase aguda é necessário que a pessoa seja internada. Ela também precisa de consultas com muita freqüência", afirma Ferreira.

APOIO - Para que o tratamento seja bem-sucedido há a necessidade de o próprio doente ter conhecimento de seu problema. "Ele precisa saber sobre a doença, identificar seus sintomas e recaídas. A família também deve apoiá-lo. Existem entidades que fazem esse trabalho como a Abrata (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos)", garante Ferreira. A Abrata foi criada em 1999 por um grupo de profissionais de saúde mental do Grupo de Doenças Afetivas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, pacientes e familiares (GRUDA). Trata-se de uma associação sem fins lucrativos, sediada na capital paulista. Seu endereço é Av. Paulista, nº 2.644 conjunto 71. O atendimento ao público é feito exclusivamente através de contatos com equipe de voluntários por e-mails (contato@Abrata.org.br) ou telefone (0XX11-3256-4831 ou 3256-4698).

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Espaço para suas perguntas!

Aqui você pode tirar suas dúvidas sobre a Bipolaridade. Deixe postado em 'comentário' sua pergunta que fazei te tudo para melhor responde-la.

terça-feira, 20 de maio de 2008

O pêndulo do humor

Psiquiatra diz que transtorno bipolar é diagnosticado freqüentemente como hiperatividade ou depressão – com conseqüências graves (Fonte: site http://www.globo.com/ - Revista Época)

Oscilar entre alegria e tristeza, euforia e depressão, sem motivo ou de forma exagerada, pode ser doença. É o chamado transtorno bipolar, que, descobriu-se recentemente, atinge 10% da população mundial. Nos pacientes mais graves, há 15% de suicídios, especialmente nos casos de diagnóstico errado - o que ocorre com freqüência, já que a bipolaridade é comumente confundida com a depressão. O uso de antidepressivos piora o lado agitado e hiperativo dos pacientes bipolares. Metade deles acaba abusando do álcool ou de outras drogas. 'Hoje, passa-se em média por três médicos até chegar ao diagnóstico correto', diz o psiquiatra gaúcho Diogo Lara, que acaba de lançar o livro Temperamento Forte e Bipolaridade, no qual explica de que forma o distúrbio se manifesta e como pode ser controlado, além de dar exemplos de personalidades bipolares, como Cazuza e Elis Regina.
Entrevista com Diogo Lara (Psiquiatra, doutor em Neurociências, pesquisador do CNPq e professor de Bioquímica da PUC-RS) :

ÉPOCA - Quais são os sintomas gerais do distúrbio bipolar?
Diogo Lara - Oscilação de humor, fora de sintonia com o que está de fato acontecendo. Os bipolares podem estar alegres, irritados ou energéticos demais sem motivo, assim como no momento seguinte podem ficar ansiosos, deprimidos ou apáticos. É uma epidemia mundial, mas as pessoas ainda não a reconhecem.

ÉPOCA - Trata-se de um distúrbio químico ou de comportamento?
Lara - Ambos. O comportamento é muito influenciado por alterações químicas no cérebro de quem tem altos e baixos no humor. Por outro lado, comportamentos extremos também podem alterar a química do cérebro.

ÉPOCA - Como se descobre que alguém é bipolar?
Lara - Quem percebe melhor são as pessoas em volta. Como regra, quem tem bipolaridade busca ajuda quando sente o lado depressivo: desânimo, ansiedade, irritação, impulsividade ou desconcentração. Por isso, a bipolaridade acaba sendo diagnosticada como déficit de atenção e hiperatividade.

ÉPOCA - Crianças hiperativas podem ser na verdade bipolares?
Lara - Cerca de um terço das diagnosticadas com hiperatividade é bipolar. É preciso prestar atenção a crianças intolerantes, que manifestam pressa para tudo e são agressivas. À noite estão sempre no auge da energia e, de manhã, devagar. Mas ao mesmo tempo são criativas, intuitivas.

ÉPOCA - Há níveis da doença?
Lara - Sim. O nível mais grave é o da mania plena ou bipolaridade do tipo I, em que os excessos de humor podem levar a sérias conseqüências. Nessas situações pode ser melhor fazer uma internação psiquiátrica. O importante é frisar que hoje se reconhecem quadros mais tênues de altos e baixos de humor, que chamamos de bipolaridade leve ou humor instável. Pelo menos metade das pessoas que acham que têm depressão pura ou DDA hoje tem, na verdade, bipolaridade. Muitos bipolares leves passam a consumir mais bebidas alcoólicas para baixar a turbulência, principalmente depois dos 40 anos.

ÉPOCA - Quais são os perigos de tratar apenas um dos pólos?
Lara - Antidepressivos e psicoestimulantes elevam demais o humor ou perdem o efeito em poucos meses, além de aumentar a irritação e a ansiedade. De 10% a 15% dos que têm tratamento inadequado tentam o suicídio, de forma mais impulsiva do que planejada.

ÉPOCA - A doença é hereditária?
Lara - Sim, a contribuição genética é de pelo menos 50%.

ÉPOCA - Em seu livro, personalidades como Cazuza e Elis Regina são citadas como típicas do comportamento bipolar. É assim tão evidente?
Lara - Os temperamentos fortes e a bipolaridade, principalmente nas formas leves, são muito comuns em artistas. Letras de Cazuza, como as de 'Pro Dia Nascer Feliz', 'Eu Ando Tão Down' e 'Exagerado', mostram o universo de humores que bipolares sentem. Elis Regina tinha o apelido de Pimentinha, trocava constantemente de visual e morreu por um desses excessos. O humor de ambos certamente era bem mais instável do que o da maioria das pessoas.

ÉPOCA - Qual é o tratamento adequado para quem tem bipolaridade?
Lara - A meta é harmonizar o humor preservando o brilho do temperamento. Isso se consegue com bons hábitos de vida, psicoterapias e remédios estabilizadores do humor, como a lamotrigina, a quetiapina e o lítio. Os medicamentos são eficazes e com poucos efeitos colaterais. Ao contrário do que muitos pensam, o tratamento correto com medicamentos deixa essas pessoas mais produtivas e satisfeitas.

ÉPOCA - Há um lado positivo da bipolaridade?
Lara - O temperamento bipolar pode favorecer a ousadia, a curiosidade, a inovação, a sexualidade. Muitas pessoas de projeção têm essas características, e justamente por elas fazem sucesso.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Entrevista com a psiquiatra especialista em Transtorno Bipolar

MUITO BOM! Veja o vídeo sobre Transtorno Bipolar com a Dra. Doris Moreno, médica psiquiatra especialista em Transtorno Bipolar. (Fonte: site da ABP Comunidade)

http://www.abpbrasil.org.br/comunidade/projeto/arquivos2007/palestra02.html

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O abuso de álcool e de drogas é muito comum em pessoas com transtorno bipolar...

O abuso de álcool e de drogas é muito comum em pessoas com Bipolaridade, então achei importante colocar esse vídeo com a reportagem do Dr. João Carlos Dias, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, sobre Dependência Química.

http://www.abpcomunidade.org.br/abp_tv/bem_estar/arquivos/drjoao.html

Mente Inquieta...

“A doença maníaco-depressiva distorce humores e pensamentos, provoca comportamentos terríveis, destrói a base do pensamento racional e com grande freqüência mina o desejo e a vontade de viver. Esta é uma doença que é biológica em sua origem, porém tem uma característica psicológica em sua vivência; uma doença que é singular por conferir vantagens e prazer, trazendo porém em seu rastro um sofrimento quase que insuportável e, não raro, suicídio.”

“Sou afortunada por não ter morrido da minha doença, afortunada por ter recebido os melhores cuidados médicos disponíveis e afortunada por ter os amigos, colegas e familiares que eu tenho.”
Kay Redfield Jamison, Ph.D., An Unquiet Mind (Mente Inquieta), 1995, pg. 56. (Reimpresso com permissão de Alfred A. Knopf, uma divisão da Random House, Inc.)

Suicídio

Se você parar para pensar, certamente já escutou alguém falar que "fulano de tal tentou suicídio" ou pior "ele cometeu suicídio".

Há 5 anos que venho estudando sobre a Bipolaridade e durante esses anos constatei que o suicídio ocorre com muita freqüência.

Tentando então diminuir essa incidência a Associação Brasileira de Psiquiatria classifica alguns sintomas que acompanham sentimentos suicidas. Seguem os sinais e sintomas:
- falar sobre se sentir suicida ou querer morrer
- sentir-se desesperado, dizendo que nada vai mudar ou melhorar
- sentir-se impotente, dizendo que nada que alguém faça faz diferença
- sentir-se uma carga para familiares e amigos
- abusar de álcool ou drogas
- colocar os negócios em ordem (p. ex., organizar as finanças ou dar pertences para se preparar para a própria morte)
- escrever um bilhete de suicídio
- colocar-se em perigo ou em situações em que haja risco de ser morto.

Algumas pessoas com Bipolaridade se tornam suicidas. Qualquer pessoa que fale em suicídio deve ser levada a sério.

O risco de suicídio parece ser mais alto ao início da evolução da doença. Por esta razão, econhecer o transtorno bipolar logo no início e aprender sobre a doença é o melhor meio para diminuir o risco de morte por suicídio. Enquanto algumas tentativas de suicídio são cuidadosamente planejadas ao longo do tempo, outras são atos impulsivos que não foram bem planejados. De qualquer modo, é importante que se compreenda que sentimentos e atos de suicídio são sintomas de uma doença que pode ser tratada.

Os sentimentos suicidas podem ser superados por um tratamento apropriado. Se você estiver se sentindo suicida ou conhecer alguém que esteja, por favor:
- chame um médico, um serviço de emergência, ou ligue para 190 imediatamente para obter ajuda logo
- certifique-se de que você, ou a pessoa suicida, não fique sozinho
- certifique-se de que não haja acesso a uma grande quantidade de medicação ou arma

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Pesquisa com MULHERES GRÁVIDAS BIPOLARES

Pesquisando pelo site da American Psychiatric Association, encontrei essa pesquisa sobre “O risco da recorrência da bipolaridade em mulheres grávidas que interrompem a medicação".

A pesquisa foi feita pelo Dr. Adele C. Viguera e seus colegas da Harvard Medical School e Emory University. Assuntos como: parar com a medicação para proteger o feto e o risco da recorrência das crises devido a falta de medicação foram analisados nessa pesquisa.


Pregnant Women at Risk of Bipolar Recurrence with Interruption of Medication

AJP Study Underscores the Value of Mood-Stabilizer Medications in Risk/Benefit Equation

Arlington, Va. (Dec. 1, 2007) — Women with bipolar disorder who stop taking their medication – such as lithium, antipsychotics and anticonvulsants prescribed as mood stabilizers – before or shortly after becoming pregnant appear to be much more likely to suffer a recurrence of the disorder, according to a study reported in the December issue of The American Journal of Psychiatry (AJP), the official journal of the American Psychiatric Association (APA).

In the prospective study of 89 pregnant women with bipolar disorder, Adele C. Viguera, M.D., and colleagues at Harvard Medical School and Emory University found that 85 percent of the 62 women they studied who stopped their mood stabilizer medication—up to six months prior to becoming pregnant or in the first 12 weeks of pregnancy—experienced a recurrence of the disorder. In comparison, only 37 percent of the 27 women who continued taking their medication through at least week 12 of pregnancy experienced a recurrence. In addition, Viguera and her colleagues report in “Recurrence Risk in Women With Bipolar Disorder During Pregnancy: Prospective Study of Mood- Stabilizer Discontinuation” that abrupt discontinuation of medication greatly increased and hastened the recurrence, confirming earlier observations by the same researchers.

The majority of the women studied were taking lithium as a mood stabilizer (55 of the 89, or 62 percent) followed in frequency of use by an anticonvulsant mood stabilizer (32/89; 36 percent) or an antipsychotic mood stabilizer (24/89; 27 percent). About half of the women in this study were also taking an antidepressant medication.

Recurrences most often took the form of a depressive or mixed episode (experiencing both symptoms of depression and mania), and most of the recurrences began within the first trimester of pregnancy. Of note, in this study it appears that antidepressant treatment did not affect the risk of recurrence.

“Women and their doctors face difficult decisions in pregnancy, because both the illness and the treatment can potentially harm the fetus,” said Robert Freedman, M.D., AJP editor in chief. “Accurate data on the risk of discontinuing treatment for bipolar disorder during pregnancy is part of the evidence that is needed to make the best possible decision for each woman and her baby,”

The episodes of recurring illness spanned on average more than 40 percent of the duration of pregnancy for those women who discontinued mood stabilizer medication, but only 9 percent of the duration of pregnancy for women who continued to take medication. Those whose mood stabilizer was discontinued abruptly (over a period of two weeks or less) had a median time to recurrence of two weeks, compared to 22 weeks for women whose medication was more gradually tapered and stopped.

In designing this study, Dr. Viguera and her colleagues incorporated several improvements over methods used in earlier studies. Previous studies were limited by small size, restricted subject pools and/or the use of retrospective assessments. The current findings are consistent with many previous reports that indicated pregnancy is a period of substantial risk for recurrence of bipolar disorder. The current findings do not support suggestions in previous studies that pregnancy exerts a favorable effect on the illness and therefore limits the risk of recurrence during pregnancy.

Recently the public’s focus has been on the possible adverse effects mood stabilizing medications may have on fetal development. As a result, many women (including 70 percent of those in this study) stop taking mood stabilizers before trying to become pregnant. The authors propose that treatment planning for pregnant women with bipolar disorder include consideration of the high recurrence risk associated with discontinuation of mood stabilizer medication.

“These findings have important clinical implications for the overall risk/benefit assessment in managing bipolar disorder during pregnancy,” said lead author Adele Viguera, M.D., now at the Cleveland Clinic. “Patients should be informed not only that there is a significant risk for recurrence associated with stopping treatment, but also that this risk appears to be greatest early on in pregnancy and especially, following abrupt discontinuation. Moreover, stopping treatment is associated with a longer duration of maternal illness during pregnancy compared to remaining on treatment. Therefore, it is critical for patients with bipolar disorder who are pregnant or planning pregnancy to be informed of the magnitude of these risks in order for them to weigh these risks along with risks associated with fetal exposure to medications.”

The study was supported in part by the National Institute of Mental Health, NARSAD, the Stanley Medical Research Institute, the Bruce J. Anderson Foundation, and the McLean Private Donors Psychopharmacology Research Fund. Additional financial disclosures appear at the end of the article.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

As pessoas com transtorno bipolar precisam de MUITA AJUDA

Muitas vezes as pessoas com transtorno bipolar não percebem quão alteradas estão ou colocam a culpa de seus problemas em outra causa que não a doença mental.

Uma pessoa com transtorno bipolar pode necessitar de um grande encorajamento de familiares e amigos para procurar tratamento. Os médicos de família podem desempenhar um papel importante na provisão de encaminhamento a um profissional de saúde mental.

Por vezes um familiar ou amigo pode ter de levar a pessoa com transtorno bipolar para uma avaliação de saúde mental e tratamento apropriados.

Uma pessoa que esteja no meio de um episódio grave pode ter de ser hospitalizada para sua própria proteção e para o tratamento muito necessário. Podem haver ocasiões em que a pessoa tenha de ser hospitalizada contra sua vontade.

Encorajamento e apoio constantes são necessários depois que a pessoa obtém tratamento, porque pode levar algum tempo para se encontrar o melhor plano de tratamento para cada indivíduo.

Em alguns casos, os indivíduos com transtorno bipolar podem concordar, quando seu caso esta sob controle, com uma estratégia preferencial para o caso de uma futura recidiva maníaca ou depressiva.

Assim com outras doenças graves, o transtorno bipolar é difícil para cônjuges, membros da família, amigos e empregadores.

Os membros da família de uma pessoa com transtorno bipolar têm com freqüência de lidar com os graves problemas de comportamento da pessoa, como folias de gastos durante a mania ou um retraimento extremo em relação as outras pessoas durante a depressão, e as conseqüências duradouras desses comportamentos. (fonte: ABP Comunidade)

Como pacientes com bipolaridade e seus familiares podem obter ajuda?

Qualquer pessoa portadora do transtorno bipolar deve estar aos cuidados de um psiquiatra com experiência no diagnóstico e tratamento dessa doença. Outros profissionais de saúde mental, como psicólogos, assistentes sociais psiquiátricos e enfermeiros psiquiátricos, podem ajudar a proporcionar à pessoa e sua família abordagens adicionais ao tratamento.

Pode-se obter ajuda em:
- Programas filiados a universidades ou escolas de medicina
- Serviços de psiquiatria de hospitais
- Consultórios e clínicas particulares de psiquiatria
- Organizações para a manutenção da saúde, ONGs
- Consultórios de médicos de família, internistas e pediatras
- Centros públicos de saúde mental comunitária
(fonte: ABP Comunidade)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

BIPOLARES FAMOSOS

Inúmeras pesquisas apontam que a bipolaridade está bem mais presente entre artistas do que em outras profissões. Isso porque os bipolares normalmente apresentam as seguintes características: espírito inovador, alta criatividade, emocionalmente intenso, altamente observador, curiosidade e empreendedor.

A seguir alguns Bipolares famosos:

Poesia:
- Fernando Pessoa
- T. S. Eliot
- Walt Whitman


Literatura:
- Agatha Christie
- Virginia Woolf
- Ernest Hemingway
- Edgar Allan Poe
- Graham Greene
- Hans Christian Andersen.

Música - no Rock:
- Cazuza
- Axl Rose (vocalista do Guns n' Roses)
- Kurt Cobain (ex-vocalista do Nirvana)
- Elvis Presley
- Janis Joplin
- Jimmy Hendrix

Música - no jazz
- Thelonius Monk (pianista)

Música - erudita
- Tchaikosvky
- Mozart
- Maria Callas

Cinema:
- Robin Williams
- Jim Carrey
- Marilyn Monroe
- Elizabeth Taylor

Artes plásticas:
- Paul Gauguin
- Vincent van Gogh

Filosofia e ciência:
- Platão
- Isaac Newton

Política:
- Winston Churchill
- Abraham Lincoln
- Ulysses Guimarães.

(Fonte: livro Temperamento Forte e Bipolaridade de Diogo Lara)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

TRATAMENTO - Como é tratado o Transtorno Bipolar?

Muitas pessoas com transtorno bipolar até mesmo aquelas com as formas mais graves podem obter uma estabilização considerável de suas oscilações do humor e dos sintomas relacionados por um tratamento apropriado.

Como o transtorno bipolar é uma doença recorrente, o tratamento preventivo prolongado é fortemente recomendado e quase sempre indicado. Uma estratégia que combine medicação e tratamento psicossocial é ótima para o controle do transtorno ao longo do tempo.

Em muitos casos o transtorno bipolar é controlado muito melhor se o tratamento for contínuo que se ele for intermitente. Ainda que não haja interrupções na continuidade do tratamento, porém, podem ocorrer alterações do humor, que devem ser relatadas imediatamente a seu médico. O médico pode conseguir impedir um episódio franco, fazendo ajustes no plano de tratamento.

Cooperar estreitamente com o médico e comunicar-se francamente quanto a dúvidas e opções relativas ao tratamento pode fazer uma diferença na eficácia do tratamento. Além disso, manter um registro dos sintomas afetivos diários, tratamentos, padrões de sono e eventos vitais pode ajudar pessoas com transtorno bipolar e seus familiares a compreender melhor a doença. Esse registro também pode ajudar o médico a acompanhar e tratar mais eficazmente a doença.
Fonte: ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria)

INFORME-SE: Transtorno Bipolar (Fonte: Associação Brasileira de Psiquiatria)

ABP Comunidade :: Responsabilidade Social

CAMPANHA - Na tela: combate ao estigma em saúde mental

Rede Globo veicula campanha produzida pela Associação Brasileira de Psiquiatria através do programa ABP Comunidade

É bastante provável que, quando ler este texto, você já tenha assistido ao vídeo da campanha “Eu tenho”, produzido pela Associação Brasileira de Psiquiatria e veiculado pela maior rede de televisão do país. A rede Globo mantém em sua grade de programação o espaço Globo Comunidade, que promove a inserção de pequenas peças educativas sobre temas de interesse público.

O vídeo, que foi apresentado na Assembléia de Delegados de 2007 e na abertura do XXV Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em Porto Alegre, enfatiza que os transtornos mentais são freqüentes, tratáveis e devem receber atenção como todas as outras doenças. A campanha foi produzida pelo Programa ABP Comunidade e teve colaboração de médicos, pacientes e profissionais de comunicação.

Segundo o presidente da ABP, João Alberto Carvalho, a exposição da campanha é benéfica principalmente para os pacientes. “O projeto foi aceito de imediato pela direção da emissora. Isso mostra como começa a existir uma percepção sobre a importância da saúde mental no Brasil”. O acordo, feito sem custo algum para a ABP, prevê no mínimo 15 inserções diárias em rede nacional.

O gerente de projetos sociais da rede Globo, Flávio Oliveira, foi o responsável pela análise do material enviado pela ABP. Ele comentou o conteúdo da campanha. “Ficaremos felizes em poder contribuir com o combate ao estigma. Espero que tenham sucesso na iniciativa”, declarou.

O vídeo, em trinta segundos, profissionais de diversas áreas falam: “eu tenho”. O locutor explica a alta incidência dos transtornos mentais e a importância de procurar atendimento. O vídeo termina de forma esclarecedora: “Não tenha receio de procurar ajuda. Você tem o direito de ser feliz”.

Clique aqui e assista ao vídeo da campanha “Eu tenho”

terça-feira, 29 de abril de 2008

Alguns números relevantes sobre o Transtorno Bipolar:


- Estima-se que cerca de 15 milhões de brasileiros sejam portadores dão Transtorno Bipolar.


- Estima-se que 1% à 3% da população mundial seja portadora do Transtorno Bipolar.


- 50% dos portadores apresentam pelo menos um familiar afetado, e filhos de portadores apresentam risco aumentado de apresentar a doença, quando comparados com a população geral.


- Dados da Organização Mundial de Saúde, ainda na década de 1990, evidenciaram que o transtorno Bipolar foi a sexta maior causa de incapacitação no mundo.


- Estimativas indicam que um portador que desenvolve os sintomas da doença aos 20 anos de idade, por exemplo, pode perder 9 anos de vida e 14 anos de produtividade profissional, se não tratado adequadamente.


- Estima-se que até 50% dos portadores do Transtorno Bipolar tentem o suicídio ao menos uma vez em suas vidas e 15 % efetivamente o cometem.


- Doenças clínicas como obesidade, diabetes, e problemas cardiovasculares são mais freqüentes entre portadores do Transtorno Bipolar do que na população geral.


- Maior associação com a dependência de álcool e drogas não apenas é comum (41% de dependência de álcool e 12% de dependência de alguma droga ilícita), como agrava o curso e o prognóstico do Transtorno Bipolar, piora a adesão ao tratamento e aumenta em suas vezes o risco de suicídio.