O pêndulo do humor

Psiquiatra diz que transtorno bipolar é diagnosticado freqüentemente como hiperatividade ou depressão – com conseqüências graves (Fonte: site http://www.globo.com/ - Revista Época)

Oscilar entre alegria e tristeza, euforia e depressão, sem motivo ou de forma exagerada, pode ser doença. É o chamado transtorno bipolar, que, descobriu-se recentemente, atinge 10% da população mundial. Nos pacientes mais graves, há 15% de suicídios, especialmente nos casos de diagnóstico errado - o que ocorre com freqüência, já que a bipolaridade é comumente confundida com a depressão. O uso de antidepressivos piora o lado agitado e hiperativo dos pacientes bipolares. Metade deles acaba abusando do álcool ou de outras drogas. 'Hoje, passa-se em média por três médicos até chegar ao diagnóstico correto', diz o psiquiatra gaúcho Diogo Lara, que acaba de lançar o livro Temperamento Forte e Bipolaridade, no qual explica de que forma o distúrbio se manifesta e como pode ser controlado, além de dar exemplos de personalidades bipolares, como Cazuza e Elis Regina.
Entrevista com Diogo Lara (Psiquiatra, doutor em Neurociências, pesquisador do CNPq e professor de Bioquímica da PUC-RS) :

ÉPOCA - Quais são os sintomas gerais do distúrbio bipolar?
Diogo Lara - Oscilação de humor, fora de sintonia com o que está de fato acontecendo. Os bipolares podem estar alegres, irritados ou energéticos demais sem motivo, assim como no momento seguinte podem ficar ansiosos, deprimidos ou apáticos. É uma epidemia mundial, mas as pessoas ainda não a reconhecem.

ÉPOCA - Trata-se de um distúrbio químico ou de comportamento?
Lara - Ambos. O comportamento é muito influenciado por alterações químicas no cérebro de quem tem altos e baixos no humor. Por outro lado, comportamentos extremos também podem alterar a química do cérebro.

ÉPOCA - Como se descobre que alguém é bipolar?
Lara - Quem percebe melhor são as pessoas em volta. Como regra, quem tem bipolaridade busca ajuda quando sente o lado depressivo: desânimo, ansiedade, irritação, impulsividade ou desconcentração. Por isso, a bipolaridade acaba sendo diagnosticada como déficit de atenção e hiperatividade.

ÉPOCA - Crianças hiperativas podem ser na verdade bipolares?
Lara - Cerca de um terço das diagnosticadas com hiperatividade é bipolar. É preciso prestar atenção a crianças intolerantes, que manifestam pressa para tudo e são agressivas. À noite estão sempre no auge da energia e, de manhã, devagar. Mas ao mesmo tempo são criativas, intuitivas.

ÉPOCA - Há níveis da doença?
Lara - Sim. O nível mais grave é o da mania plena ou bipolaridade do tipo I, em que os excessos de humor podem levar a sérias conseqüências. Nessas situações pode ser melhor fazer uma internação psiquiátrica. O importante é frisar que hoje se reconhecem quadros mais tênues de altos e baixos de humor, que chamamos de bipolaridade leve ou humor instável. Pelo menos metade das pessoas que acham que têm depressão pura ou DDA hoje tem, na verdade, bipolaridade. Muitos bipolares leves passam a consumir mais bebidas alcoólicas para baixar a turbulência, principalmente depois dos 40 anos.

ÉPOCA - Quais são os perigos de tratar apenas um dos pólos?
Lara - Antidepressivos e psicoestimulantes elevam demais o humor ou perdem o efeito em poucos meses, além de aumentar a irritação e a ansiedade. De 10% a 15% dos que têm tratamento inadequado tentam o suicídio, de forma mais impulsiva do que planejada.

ÉPOCA - A doença é hereditária?
Lara - Sim, a contribuição genética é de pelo menos 50%.

ÉPOCA - Em seu livro, personalidades como Cazuza e Elis Regina são citadas como típicas do comportamento bipolar. É assim tão evidente?
Lara - Os temperamentos fortes e a bipolaridade, principalmente nas formas leves, são muito comuns em artistas. Letras de Cazuza, como as de 'Pro Dia Nascer Feliz', 'Eu Ando Tão Down' e 'Exagerado', mostram o universo de humores que bipolares sentem. Elis Regina tinha o apelido de Pimentinha, trocava constantemente de visual e morreu por um desses excessos. O humor de ambos certamente era bem mais instável do que o da maioria das pessoas.

ÉPOCA - Qual é o tratamento adequado para quem tem bipolaridade?
Lara - A meta é harmonizar o humor preservando o brilho do temperamento. Isso se consegue com bons hábitos de vida, psicoterapias e remédios estabilizadores do humor, como a lamotrigina, a quetiapina e o lítio. Os medicamentos são eficazes e com poucos efeitos colaterais. Ao contrário do que muitos pensam, o tratamento correto com medicamentos deixa essas pessoas mais produtivas e satisfeitas.

ÉPOCA - Há um lado positivo da bipolaridade?
Lara - O temperamento bipolar pode favorecer a ousadia, a curiosidade, a inovação, a sexualidade. Muitas pessoas de projeção têm essas características, e justamente por elas fazem sucesso.

Comentários

Unknown disse…
como amenizar a falta do libido, em homens de 30 anos q toma 4 lítios ??

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